Rompendo o silêncio cúmplice da máfia midiática, a Folha desta quinta-feira (4) finalmente noticiou que o “Fisco multa Globo em R$ 274 milhões por direitos da Copa em 2002”. O jornal, porém, não teve a humildade de reconhecer que a denúncia bombástica foi feita pelo blogueiro Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho, há vários dias. A Folha, que perde leitores e afunda na crise do seu modelo de negócios devido à explosão da internet e à perda da sua credibilidade, não podia confessar que foi pautada por um blogueiro. Aí também já era pedir demais ao jornalão da famiglia Frias!
Mesmo assim, vale reproduzir a matéria da Folha:
*****
Fisco multa Globo em R$ 274 mi por direitos da Copa de 2002
Para Receita, emissora disfarçou pagamento adquirindo empresa para se livrar de imposto
Imposto supostamente devido foi de R$ 183 mi; com correção monetária, valor chegou a R$ 615 mi
DE SÃO PAULO
A Receita Federal autuou a Rede Globo de Televisão por supostas irregularidades na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Os fiscais afirmam que a emissora usou uma empresa de fachada no exterior só para não recolher impostos no Brasil.
A Globo diz ter seguido a legislação, mas confirma ter pago a multa. A empresa não respondeu à Folha se fez o pagamento para obter descontos e, posteriormente, discutir a multa na Justiça ou se efetuou o pagamento, assumindo a infração.
A suposta manobra fiscal resultou em uma multa de R$ 274 milhões pelo não recolhimento de R$ 183 milhões em Imposto de Renda. Considerando a correção monetária até 2006, o total cobrado da Globo foi de R$ 615 milhões.
Segundo apurou a Folha, no sistema da Receita, o processo da Globo consta como "em trânsito". Isso significa que o pagamento pode ter ocorrido (à vista ou parcelado) e o cadastro da emissora não foi regularizado.
Ainda segundo apurou a reportagem, em 2002, a Globo declarou à Receita cerca de R$ 1,2 bilhão em investimento feito na compra de participação de uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.
Como a legislação tributária isenta investimentos de impostos, a Globo não tinha de fazer recolhimentos.
O problema é que, para os fiscais, a empresa nas Ilhas Virgens Britânicas era de fachada e só foi usada para intermediar o pagamento dos direitos dos jogos da Copa.
Por isso, a compra de participação nessa companhia teria sido uma simulação só para escapar da tributação no país. Negócios desse tipo são frequentes e as empresas se defendem dizendo que não é crime fazer "planejamento tributário" --operações com amparo legal para redução de imposto a ser pago.
Consultada, a Receita disse que o processo corre sob sigilo e que está investigando o vazamento das informações divulgadas inicialmente por um blog na semana passada.
ANTECEDENTES
A compra dos direitos da Copa de 2002 e 2006 pela Globo foi tensa. A emissora assinou contrato, em 1998, com a empresa ISL, que quebrou meses após o pagamento da Globo de US$ 60 milhões.
Em 2001, as negociações foram retomadas com a alemã Kirch, sucessora da ISL que assumiu os US$ 60 milhões já pagos pela Globo que estavam sendo cobrados novamente. Com o acordo, a emissora aceitou pagar US$ 440 milhões pelas duas Copas.
Em 2002, com a alta do dólar, que se aproximou de R$ 4, a Globo quis renegociar por considerar o valor "impagável". Ameaçou romper o contrato e, no final, a exclusividade foi mantida.
*****
A Folha, que nunca ouve o “outro lado” quando criminaliza os movimentos sociais e as forças de esquerda, até reservou um espaço para as explicações da Rede Globo – que é sua sócia na edição do jornal Valor. “Por meio de sua assessoria, a Globo Comunicação e Participações, que controla a TV Globo, informou que não existe pendência tributária da empresa com a Receita referente à aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002”. O jornal até afirma que “enviou perguntas à emissora, pedindo esclarecimentos sobre o pagamento, a situação cadastral da empresa e a suposta irregularidade”. A TV Globo, porém, “não quis comentar”.
A tendência, como sempre, é que a Folha encerre o assunto nos próximos dias – quando diminuírem os protestos contra o império global. Os barões da mídia concorrem no mercado, mas mantêm uma unidade de aço na defesa dos seus interesses políticos de classe!
quinta-feira, 4 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Sem mobilização e luta popular, não haverá plebiscito
Sem mobilização e luta popular, não haverá plebiscito sobre a reforma política. A oposição, capitaneada pelo trio FHC-Aécio-Serra está contra; o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), diz que a bancada votará contra, ou a sua maioria; o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), propõe uma comissão para fazer a reforma na Câmara e depois um referendo; no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral, um ministro vira ativista político contra o plebiscito.
Os mesmos que exigem ações do governo federal para atender todas as demandas populares, não dos seus governos nos Estados e municípios; os mesmos que aprovam a toque de caixa, com medo das manifestações, leis de caráter populista e demagógico como a do passe livre para todos, para os que têm renda, ou a lei que transforma a corrupção em crime hediondo, quando o próprio STF já declarou inconstitucional parte da lei que o instituiu para outros crimes.
Os mesmos que na mídia clamam pelo atendimento de todas as reivindicações populares e já agora são contra o plebiscito. O povo que está nas ruas pode reivindicar tudo, menos decidir sobre o poder político, sobre aquilo que ele tem soberania natural, sobre sua Constituição e sobre como eleger o Poder Legislativo, o poder dos poderes.
Querem usar o povo que está nas ruas para seus objetivos políticos, eleitorais, como massa de manobra para fazer oposição ao governo Dilma, para tirar do poder o PT, para pôr fim às políticas e aos programas sociais, de distribuição de renda, de defesa do Brasil. Democracia só quando é para atender os interesses que representam, da elite. Quando o povo quer participar e decidir, não vale.
É preciso lembrar ao povo como governaram o Brasil os que hoje cinicamente atacam o governo Dilma, o PT e o ex-presidente Lula. Lembrar os anos FHC, o desemprego, com o país quebrado duas vezes, a privataria, o escândalo da reeleição – com a qual agora querem acabar –, o câmbio fixo que arruinou nossa indústria, os juros altos (de 27,5% reais ao ano) que dobraram a nossa dívida interna, que agora nos custa 5% do PIB, que falta na educação e na saúde, nos investimentos em inovação e tecnologia, em saneamento e mobilidade urbana.
É preciso lembrar que éramos um país endividado, quebrado, devendo para o FMI, de pires na mão e sem autoestima e prestígio internacional. Sem presença e liderança no mundo.
* José Dirceu foi ministro da Casa Civil na gestão do ex-presidente Lula
terça-feira, 2 de julho de 2013
Liberdade de expressão para todos
O futuro muda quase em tempo real, mas a legislação brasileira permanece imóvel, acorrentada aos anos 1960, quando a internet era coisa de ficção científica e televisores cheios de válvulas exibiam imagens distorcidas em preto e branco.
A informação está disponível na ponta dos dedos, em tempo real, nas telas de smartphones e tablets que carregamos no bolso ou na mochila. Em breve, estará também diante dos nossos olhos, projetada em telas virtuais por óculos conectados à internet, enquanto caminhamos pela rua.
Equipados com câmeras de fotografia e vídeo, smartphones, tablets e óculos eletrônicos servem não apenas ao consumo passivo, mas também à produção de conteúdo, que podemos disponibilizar em seguida para outros consumidores/produtores de informação mundo afora, por meio das redes sociais.
O futuro chegou, e com ele a convergência de mídias, a interatividade, a produção colaborativa de informação, a disputa entre empresas de radiodifusão e de telefonia, as fronteiras cada vez mais tênues entre consumidor/produtor de conteúdo.
O futuro muda quase em tempo real, mas a legislação brasileira permanece imóvel, acorrentada aos anos 1960, quando a internet era coisa de ficção científica e televisores cheios de válvulas exibiam imagens distorcidas em preto e branco. A multiplicidade de pontos de vista, ideias e pensamentos aberta pela internet ainda não chegou aos veículos de comunicação de massa, mesmo sendo eles concessionários de um serviço público da maior relevância para o aperfeiçoamento da democracia.
Esse é, por si só, um bom motivo para discutir um marco regulatório para os meios de comunicação. Mas há também outro forte motivo, cravado no capítulo V da Constituição Federal. Um quarto de século depois, o capítulo que trata da Comunicação Social continua à espera de regulamentação, contrariando a vontade dos constituintes eleitos pelo povo.
A Constituição de 1988 selou o reencontro do Brasil com a democracia. A partir de então, temos avançado nos mais diferentes setores da vida nacional. O Congresso debateu e aprovou leis relativas a saúde, educação, meio ambiente, habitação, segurança pública. No momento estão em discussão os novos Código Penal e Código de Processo Civil, para adequá-los ao país que está longe de ser o mesmo Brasil do século passado.
No entanto, o debate sobre regulamentação e democratização dos meios de comunicação ainda é tabu; permanece interditado pelos grandes grupos de mídia, sob o argumento de que poria em risco a liberdade de expressão. Tal argumento não se sustenta. Antes de tudo, porque liberdade de expressão pressupõe livre debate de ideias e posicionamentos, mas também porque a própria Constituição assegura com todas as letras, em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
Para que não ficassem dúvidas, o parágrafo 1º do mesmo artigo garante: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social”. O parágrafo seguinte é ainda mais explícito: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.
Afastado o fantasma da censura, e tendo como ponto de partida a inviolabilidade das liberdades de pensamento, criação, expressão e informação, há que debater se os veículos de comunicação de massa refletem a pluralidade do Brasil – ou se, ao contrário, tentam impor o pensamento único e um modelo cultural hegemônico incompatíveis com a dimensão e a diversidade do país.
A Constituição é clara: “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. No entanto, o que vemos hoje é um pequeno grupo de empresas tentando pautar a sociedade brasileira para a defesa de seus interesses privados – políticos e econômicos – por meio da propriedade cruzada de veículos de comunicação. Em vez da multiplicidade de vozes, um dos fundamentos da democracia, temos uma voz única multiplicada por redes de televisão, emissoras de rádio, jornais, revistas, portais de internet.
*Paulo Teixeira é deputado federal e secretário geral do PT
**Artigo publicado originalmente da Revista Teoria e Debate
Radicalizar a democracia e transformar a política: breves impressões sobre as manifestações recentes
As
recentes manifestações ocorridas no Brasil foram a maior mobilização social
ocorrida nas últimas décadas e talvez já tenham superado o movimento dos
cara-pintada na campanha Fora Collor. No calor do momento, como se sabe, a
compreensão de fenômenos desta natureza torna-se mais complexa, a separação
entre novas e velhas formas de mobilização, organização e articulação torna-se
mais difícil, daí a importância de um esforço mais concentrado de reflexão,
principalmente para que possamos compreender como o potencial gerado pela
população nas ruas pode acelerar a velocidade das transformações no país.
As
mobilizações foram bastante positivas, chacoalharam toda a sociedade e
pressionaram os governos e os parlamentos a darem respostas concretas para as
ruas e para as redes. Estamos diante de uma oportunidade para aprofundar as
mudanças em curso no Brasil há uma década, portanto, é importante também
avaliar as contradições e os desafios impostos a partir desse momento.
Nos
últimos anos o projeto democrático e popular provocou profundas transformações:
forte crescimento econômico, ampliação do mercado formal de trabalho e
fortalecimento do Estado, além de importantes avanços na distribuição de renda
e na inclusão social. Este processo fez com que 40 milhões de brasileiros
ascendessem socialmente a partir da ampliação do consumo e da renda. Contudo,
faltaram políticas estruturantes no campo educacional, da saúde e da cultura,
com capacidade de não apenas gerar consumidores, mas cidadãos críticos e
ativos.
O
crescimento das cidades e das regiões metropolitanas, acompanhado pela
especulação imobiliária, pelo modelo rodoviarista e pela ausência da reforma
urbana, intensificou os problemas vividos no dia a dia pelos cidadãos. Grandes
deslocamentos do trabalho para casa, graves problemas de saneamento, serviços
ruins de saúde e educação e ausência de equipamentos culturais e esportivos nas
periferias não permitiram uma ampliação da qualidade de vida tal como o
esperado. Ou seja, a vida melhorou da porta de casa para dentro, mas piorou da
porta de casa para fora.
Portanto,
mesmo que com importantes avanços no Brasil, há de sobra motivo para indignação
e luta. Fica claro essa afirmação, quando analisamos o início do movimento
recente, com a luta pela redução da tarifa dos transportes. O Passe Livre
mobilizou-se em torno de uma causa justa: o alto custo do transporte no
orçamento das famílias que vivem nas cidades, uma pauta de fácil compreensão e
de alto apelo social. O estopim deste processo se deu com a forte repressão
policial ocorrida em São Paulo, que sem nenhum controle e com o aval do
governador do estado promoveu um show de horrores, iniciado na esquina da Rua
da Consolação com a Rua Maria Antônia. Vale destacar: tais práticas violentas
são corriqueiras nas periferias, principalmente nos bailes funks.
Entretanto,
foi apenas a partir desse episódio, que inclusive atingiu jornalistas da grande
imprensa, que as imagens ocuparam os principais veículos de comunicação e
geraram um sentimento de solidariedade de milhares de jovens e da sociedade em
São Paulo e no Brasil.
Erram
aqueles que desqualificam os manifestantes por serem jovens da “classe média” e
também aqueles que consideram um movimento conservador e com predominância da
direita. É importante recuperar as lutas que promoveram transformações no
Brasil como as Diretas Já e o Fora Collor, ambas protagonizadas por jovens de
classe média, brancos. No entanto, existe um fenômeno interessante que vale a
pena destacar: apesar de elevada escolaridade, em comparação com a maioria da
população, a grande maioria dos que foram para as ruas é composta por
trabalhadores mais do que por estudantes. Aliás, parte dos manifestantes são
jovens que ascenderam socialmente com as políticas do período Lula/Dilma, e que
reivindicam novas políticas para que seu direito de acesso à cidadania torne-se
também um direito de acesso ao uso democrático das cidades.
Um
aspecto que merece grande atenção está no fato de que a grande multidão que
veio as ruas não possui representantes tradicionais e intermediários
(partidos/organizações/sindicatos/entidades estudantis), trata-se de um
contingente que veio para as manifestações a partir de articulações realizadas
nas redes sociais. Esse é um fenômeno novo que talvez seja um dos mais difíceis
de compreender e por isso tem provocado respostas equivocadas da esquerda,
principalmente do PT.
É também
verdade que pautas da direita entraram na multidão, contudo, a defesa de saúde
e educação de qualidade, assim como transporte público, demonstram que existe
uma forte demanda por mais Estado e políticas públicas. Ou seja, existe um
desejo pelo aprofundamento das transformações surgindo das ruas e das redes.
Uma das
poucas certezas que um momento como esse nos permite apontar está na
constatação de que há um clamor popular por modificações no modelo democrático
atual, todas as instituições são colocadas em xeque, da esquerda à direita,
partidos e movimentos sociais tradicionais estão sob avaliação.
A reação
violenta de grupos de direita infiltrados, contrários à presença da esquerda
organizada, com forte apoio da massa, assusta e preocupa. Contudo, a resposta
me parece bastante diferente do que tradicionalmente a esquerda sugere. Ligar o
carro de som e empunhar as bandeiras para disputar o movimento a fim de
trazê-lo para a esquerda tem sido uma estratégia bastante usual e muito
equivocada, afinal, o cenário pede menos um embate de quem pretende dirigir o
movimento e mais a agregação de quem se dispõe a realizar uma efetiva disputa
de hegemonia.
No atual
momento é preciso desconfiar de todas as fórmulas prontas e receitas velhas
conhecidas. Para dialogar com este novo fenômeno, que vem se constituindo há
pelo menos 13 anos, é preciso paciência e ousadia. Paciência para compreender
uma nova linguagem política. Ousadia para iniciar a auto-crítica acerca de como
a acomodação institucional e a burocratização tem limitado a criação de novas
respostas, mesmo em partidos sensíveis à voz das ruas como é o caso do PT.
É também
muito importante apresentar uma nova agenda para os nossos governos
democrático-populares. A reclamação sobre a tarifa dos transportes, o
comportamento dos meios de comunicação tradicionais e das novas redes sociais,
assim como a insatisfação com relação à classe política nos obriga a pensar, no
âmbito federal, em questões fundamentais como a justiça tributária, a
democratização da comunicação e a reforma política, e no âmbito municipal nos
impõe o desafio de articular respostas que passam, por exemplo, pelas políticas
de participação e de juventude. Este é o momento de renovar a esquerda
radicalmente.
A
juventude que está nas ruas não aceita mais ser representada por este modelo
vertical de política, mediado por lideranças burocráticas e/ou com concepções
vanguardistas. Essa juventude quer ser ouvida para valer, quer participar da
política de verdade. Essa juventude está convocando a sociedade brasileira a
construir instituições mais participativas, mais permeáveis e mais
transparentes, sua força está na sua pluralidade. Não é possível dirigir e
organizar a pauta dessa multidão nos marcos tradicionais da política, o que
devemos fazer é nos somar, nas ruas e nas redes, a essa voz coletiva que não
quer apenas falar, mas quer sobretudo decidir.
*Gabriel
Medina, psicólogo, foi presidente do Conselho Nacional da Juventude e, é atualmente coordenador de Políticas para a Juventude
da Prefeitura do Município de São Paulo.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Nos pobres da África, a oportunidade para um continente em ascensão
A África está cheia de boas notícias mas pouca gente nas demais regiões do mundo se dá conta disso.
As noticias que nos chegam dos países africanos, quando chegam, são quase sempre negativas e caricaturais. Quem observa com atenção e sem preconceitos, no entanto, percebe que está nascendo uma nova África.
Nesta nova África, o PIB cresce cerca de 5% há mais de uma década. Apesar da crise financeira internacional, deve crescer a taxa semelhante em 2013, com a inflação sob controle. Entre os dez países que mais cresceram em todo o mundo, nos últimos anos, nada menos de sete são africanos.
A chamada classe média africana já ultrapassou a marca de 300 milhões de pessoas, em uma população de cerca de 1 bilhão de habitantes. Os indicadores de saúde na maioria dos países da região tem melhorado. Melhorou também o acesso à tecnologia: hoje existem mais de 700 milhões de celulares no continente e mais de 100 milhões tem acesso à internet.
A democracia avança a passos largos. Em 2011 e 2012, houve 26 eleições para o executivo e o legislativo em países africanos. O continente sabe a importância da democracia e não abrirá mão do direito do povo escolher com liberdade seus governantes e participar ativamente na definição das políticas públicas.
Apesar de todos os problemas que ainda enfrenta, está conseguindo superar a herança devastadora do colonialismo e das disputas entre as grandes potências da guerra fria. Está se consolidando cada vez mais como um continente de paz e de progresso.
Como presidente do Brasil, visitei 26 países africanos, ampliando relações políticas, econômicas e sociais. Nossa parceria com os países africanos tornou-se muito mais abrangente e diversificada. E desde que deixei a presidência, já estive em 10 países do continente, a convite de seus presidentes e da União Africana. Debati os desafios do futuro com jovens, empresários, sindicalistas, governantes e agências de desenvolvimento.
Os governantes africanos perceberam que é preciso desafiar a lógica insensata, recessiva e excludente, de tantos países chamados desenvolvidos. Em vez de cortar investimentos, rebaixar salários e aposentadorias e demitir trabalhadores, atrofiar o crédito e o consumo, quase todos os países africanos estão fazendo justamente o contrário: incentivando o investimento, gerando empregos e fomentando o mercado interno.
A União Africana, que acaba de comemorar o seu 50º aniversário, está certa: o momento é de ousadia e não de passividade. É tempo de solidariedade entre as nações, não de pressão dos países com economias mais fortes sobre os mais fracos.
A África voltou a conduzir o seu próprio destino. Ela não quer nem deve ser dirigida por outros. Quer a inclusão social e o bem estar de sua gente, sem interferência política ou militar de nações estrangeiras. Quer conquistar a autossuficiência alimentar e a independência energética, construindo uma logística de integração que permita expandir o comércio, a indústria e a cooperação produtiva entre os seus países.
Daí a enorme importância do Programa de Desenvolvimento – o PIDA – que os 54 países da África aprovaram recentemente e estão lutando para viabilizar. O PIDA, cujo lema é “interligar, integrar e transformar”, planeja investir U$ 360 bilhões até 2040, sendo U$ 68 bilhões em ações prioritárias até 2020. Seus projetos mais importantes concentram-se nas áreas de energia, saneamento, transporte, irrigação e novas tecnologias. Quando a União Africana toma uma iniciativa dessa envergadura, ela demonstra a seriedade daqueles que, diante da crise, não se desesperam nem se omitem.
Eu aplaudo tal ousadia. E tenho dito aos meus amigos africanos que essa mesma ousadia pode e deve ser adotada no combate à fome, que continua sendo uma das piores mazelas mundiais e, particularmente, da África. O combate à fome e a pobreza é vital para a afirmação de uma nova África.
Pobreza e miséria não são leis da natureza. Não faltam alimentos nem tecnologia para aumentar a sua produção. Não há motivo algum para nos conformarmos com o fato de que quase 1 bilhão de seres humanos, dos quais 239 milhões na África, segundo as Nações Unidas, continuem sofrendo diariamente com a fome e a desnutrição.
Em 2003, quando assumi a presidência do meu país, tinha convicção moral e política de que era necessário combater a fome e a pobreza com vigorosas políticas de Estado. Hoje, tenho a certeza e a experiência prática de que é possível acabar com a fome no mundo.
Com a tecnologia adequada, não tenho dúvida de que o continente africano poderá dar nas próximas décadas o mesmo salto agrícola que o Brasil, por exemplo, já deu. Os estudos da Embrapa, a empresa pública brasileira de pesquisas agrícolas, indicam que a savana africana é muito semelhante ao cerrado brasileiro, hoje o nosso maior celeiro. Estou seguro de que em pouco tempo ela poderá alimentar os seus povos, e exportar grãos, carnes e biocombustíveis para inúmeros países do mundo.
A luta contra a fome e a pobreza não é só um imperativo moral de qualquer democracia digna desse nome. A inclusão social gera também novos empregos e impulsiona o crescimento da economia.
Outros países tem experimentado caminho semelhante. Eu estive no México, a convite do presidente Enrique Peña Nieto, no lançamento da sua cruzada nacional contra a fome. Programas de transferência de renda tem sido adotados em países tão diferentes como, por exemplo, a Índia e o Equador. Fiquei muito feliz ao saber, pelo Primeiro Ministro do Haiti, que um novo programa “Ajuda ao Povo” deverá beneficiar 800 mil pessoas, cerca de 8% da população total do país.
No Brasil, os números que traduzem melhor o sucesso dessa estratégia de investir nos pobres são os 20 milhões de empregos formais criados nos últimos dez anos, as 36 milhões de pessoas que saíram da extrema pobreza e as 40 milhões que ascenderam à classe média.
Eu estou convencido de que o investimento em programas sociais, na produção agrícola e na infraestrutura dos países em desenvolvimento, especialmente da África, poderá criar milhões de novos empregos e consumidores, impulsionando a demanda por produtos e serviços e contribuindo para uma retomada sustentável da economia global.
A União Africana, a FAO e o Instituto Lula promoverão em Adis Abeba, na Etiópia, no final de junho, uma reunião de alto nível para discutir a segurança alimentar na África. Queremos integrar cada vez mais a atuação dos diferentes atores, inclusive as entidades civis, na luta contra a fome.
Uma iniciativa como essa, porém, só terá sucesso se o governo de cada país se comprometer a incluir, de uma vez por todas, os pobres no seu orçamento. Recursos para os pobres não podem ser vistos como gasto, mas como investimento de alto retorno que um país faz em seu próprio povo.
*Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil e trabalha com iniciativas globais no Instituto Lula
As noticias que nos chegam dos países africanos, quando chegam, são quase sempre negativas e caricaturais. Quem observa com atenção e sem preconceitos, no entanto, percebe que está nascendo uma nova África.
Nesta nova África, o PIB cresce cerca de 5% há mais de uma década. Apesar da crise financeira internacional, deve crescer a taxa semelhante em 2013, com a inflação sob controle. Entre os dez países que mais cresceram em todo o mundo, nos últimos anos, nada menos de sete são africanos.
A chamada classe média africana já ultrapassou a marca de 300 milhões de pessoas, em uma população de cerca de 1 bilhão de habitantes. Os indicadores de saúde na maioria dos países da região tem melhorado. Melhorou também o acesso à tecnologia: hoje existem mais de 700 milhões de celulares no continente e mais de 100 milhões tem acesso à internet.
A democracia avança a passos largos. Em 2011 e 2012, houve 26 eleições para o executivo e o legislativo em países africanos. O continente sabe a importância da democracia e não abrirá mão do direito do povo escolher com liberdade seus governantes e participar ativamente na definição das políticas públicas.
Apesar de todos os problemas que ainda enfrenta, está conseguindo superar a herança devastadora do colonialismo e das disputas entre as grandes potências da guerra fria. Está se consolidando cada vez mais como um continente de paz e de progresso.
Como presidente do Brasil, visitei 26 países africanos, ampliando relações políticas, econômicas e sociais. Nossa parceria com os países africanos tornou-se muito mais abrangente e diversificada. E desde que deixei a presidência, já estive em 10 países do continente, a convite de seus presidentes e da União Africana. Debati os desafios do futuro com jovens, empresários, sindicalistas, governantes e agências de desenvolvimento.
Os governantes africanos perceberam que é preciso desafiar a lógica insensata, recessiva e excludente, de tantos países chamados desenvolvidos. Em vez de cortar investimentos, rebaixar salários e aposentadorias e demitir trabalhadores, atrofiar o crédito e o consumo, quase todos os países africanos estão fazendo justamente o contrário: incentivando o investimento, gerando empregos e fomentando o mercado interno.
A União Africana, que acaba de comemorar o seu 50º aniversário, está certa: o momento é de ousadia e não de passividade. É tempo de solidariedade entre as nações, não de pressão dos países com economias mais fortes sobre os mais fracos.
A África voltou a conduzir o seu próprio destino. Ela não quer nem deve ser dirigida por outros. Quer a inclusão social e o bem estar de sua gente, sem interferência política ou militar de nações estrangeiras. Quer conquistar a autossuficiência alimentar e a independência energética, construindo uma logística de integração que permita expandir o comércio, a indústria e a cooperação produtiva entre os seus países.
Daí a enorme importância do Programa de Desenvolvimento – o PIDA – que os 54 países da África aprovaram recentemente e estão lutando para viabilizar. O PIDA, cujo lema é “interligar, integrar e transformar”, planeja investir U$ 360 bilhões até 2040, sendo U$ 68 bilhões em ações prioritárias até 2020. Seus projetos mais importantes concentram-se nas áreas de energia, saneamento, transporte, irrigação e novas tecnologias. Quando a União Africana toma uma iniciativa dessa envergadura, ela demonstra a seriedade daqueles que, diante da crise, não se desesperam nem se omitem.
Eu aplaudo tal ousadia. E tenho dito aos meus amigos africanos que essa mesma ousadia pode e deve ser adotada no combate à fome, que continua sendo uma das piores mazelas mundiais e, particularmente, da África. O combate à fome e a pobreza é vital para a afirmação de uma nova África.
Pobreza e miséria não são leis da natureza. Não faltam alimentos nem tecnologia para aumentar a sua produção. Não há motivo algum para nos conformarmos com o fato de que quase 1 bilhão de seres humanos, dos quais 239 milhões na África, segundo as Nações Unidas, continuem sofrendo diariamente com a fome e a desnutrição.
Em 2003, quando assumi a presidência do meu país, tinha convicção moral e política de que era necessário combater a fome e a pobreza com vigorosas políticas de Estado. Hoje, tenho a certeza e a experiência prática de que é possível acabar com a fome no mundo.
Com a tecnologia adequada, não tenho dúvida de que o continente africano poderá dar nas próximas décadas o mesmo salto agrícola que o Brasil, por exemplo, já deu. Os estudos da Embrapa, a empresa pública brasileira de pesquisas agrícolas, indicam que a savana africana é muito semelhante ao cerrado brasileiro, hoje o nosso maior celeiro. Estou seguro de que em pouco tempo ela poderá alimentar os seus povos, e exportar grãos, carnes e biocombustíveis para inúmeros países do mundo.
A luta contra a fome e a pobreza não é só um imperativo moral de qualquer democracia digna desse nome. A inclusão social gera também novos empregos e impulsiona o crescimento da economia.
Outros países tem experimentado caminho semelhante. Eu estive no México, a convite do presidente Enrique Peña Nieto, no lançamento da sua cruzada nacional contra a fome. Programas de transferência de renda tem sido adotados em países tão diferentes como, por exemplo, a Índia e o Equador. Fiquei muito feliz ao saber, pelo Primeiro Ministro do Haiti, que um novo programa “Ajuda ao Povo” deverá beneficiar 800 mil pessoas, cerca de 8% da população total do país.
No Brasil, os números que traduzem melhor o sucesso dessa estratégia de investir nos pobres são os 20 milhões de empregos formais criados nos últimos dez anos, as 36 milhões de pessoas que saíram da extrema pobreza e as 40 milhões que ascenderam à classe média.
Eu estou convencido de que o investimento em programas sociais, na produção agrícola e na infraestrutura dos países em desenvolvimento, especialmente da África, poderá criar milhões de novos empregos e consumidores, impulsionando a demanda por produtos e serviços e contribuindo para uma retomada sustentável da economia global.
A União Africana, a FAO e o Instituto Lula promoverão em Adis Abeba, na Etiópia, no final de junho, uma reunião de alto nível para discutir a segurança alimentar na África. Queremos integrar cada vez mais a atuação dos diferentes atores, inclusive as entidades civis, na luta contra a fome.
Uma iniciativa como essa, porém, só terá sucesso se o governo de cada país se comprometer a incluir, de uma vez por todas, os pobres no seu orçamento. Recursos para os pobres não podem ser vistos como gasto, mas como investimento de alto retorno que um país faz em seu próprio povo.
*Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil e trabalha com iniciativas globais no Instituto Lula
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