terça-feira, 10 de abril de 2012
QUANTO MENOS VOCÊ PENSA, MAIS CONSERVADOR VOCÊ É
De acordo com um estudo de quatro psicólogos estadunidenses, pode haver uma ligação entre conservadorismo social e reagir sem pensar muito. Os pesquisadores estudaram as respostas de pessoas enquanto elas consumiam álcool, estavam distraídas ou sob pressão para responder rapidamente e concluíram que os obstáculos à reflexão aumentavam o conservadorismo.
Segundo os autores do estudo, pode haver uma relação entre o que eles chamam de "pensamento de pouco esforço" e conservadorismo político.
"Ênfase na responsabilidade pessoal, aceitação de hierarquias e preferência pelo status quo estão ligadas a maneiras rápidas e eficientes de processar a informação", escrevem os autores Scott Eidelman e John Blanchar da Universidade de Arkansas, Christian Crandall da Universidade do Kansas e Jeffrey Goodman da Universidade de Wisconsin.
Eidelman, entretanto, esclarece: "nós não estamos dizendo que conservadores pensam pouco". Então tá.
Fonte: Revista Samuel
França: a surpreendente maré vermelha
Ao entrar na reta final, a menos de um mês do primeiro turno (em 22 de abril), a disputa pela presidência da França foi marcada por uma novidade importante. A Frente de Esquerda, que reúne um amplo arco de organizações progressistas, realizou, em 18 de março, o maior dos comícios da campanha, até o momento. Reuniu entre 70 mil e 120 mil na emblemática Praça da Bastilha. O ato marcou o ascenso de seu candidato, Jean-Luc Mélenchon, que já aparece, em algumas das sondagens (veja o ótimo site comparativo do Le Monde), como o terceiro colocado, com 13% das intenções de voto. A subida é ainda mais saborosa por coincidir com a queda de Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita.
O grande comício conseguiu mobilizar muito mais que os militantes da Frente de Esquerda. Muitos dos presentes diziam terem comparecido ao local simbólico da revolução francesa porque esperam que Mélenchon crie uma dinâmica capaz de levar o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, mais para a esquerda. De todo modo, sabem que Mélenchon – a grande revelação deste pleito, apesar do desprezo da mídia e analistas políticos – apoiará o socialista no segundo turno.
Há uma probabilidade que o candidato da Frente de Esquerda cresça, em função dos futuros debates, que agora apresentarão os candidatos em condições igualitárias. Mélenchon, que subiu com um discurso direto e combativo, certamente saberá aproveitar-se da fresta de sol que se abriu no final da tarde do domingo chuvoso de Paris — quando defendeu a revolução da cidadania, associando-a a uma nova tomada da Bastilha.
Além de reunir, no comício de lançamento, quatro vezes mais público que o candidato do PS, o representante da Frente de Esquerda conseguiu rara unanimidade midiática. Agora, todos os jornais reconheceram o sucesso do ato em prol de uma 6°. Republica. Seu discurso foi curto – 20 minutos – mas suficiente para inflamar a multidão. Bom tribuno, Jean-Luc Mélechon fez uma fala histórica, relembrando a constituinte de 1789, a insurreição de 1793, a comuna de Paris (18 de março 1871). Pela primeira vez, na França, um candidato usa um espaço publico para organizar um encontro eleitoral.
Jean-Luc Mélenchon é um antigo trotskista da ala “lambertista”. Mais tarde, tornou-se seguidor do ex-presidente (pelo PS) François Mitterrand. É excelente orador, brilhante polemista, o único candidato a molestar os jornalistas parisienses – principalmente os ligados a Sarkozy. É capaz de desconstruir os argumentos do adversário em poucos minutos e de sair das armadilhas preparadas por certos homens da mídia. Tem uma bagagem intelectual superior à de seus adversários. O jeito brigão e irônico não tira o brilho de suas intervenções. Os franceses adoram um bom debate de ideias e gostam de contraditórios. Há um saudosismo ligado à imagem deixada por Miterrand e pelo velho comunista Georges Marchais. Mesmo os opositores de direita reconhecem e relembram sempre os dois grandes animais políticos.
O candidato do Front de Gauche é também um grande articulador. Conseguiu reunir velhos inimigos — comunistas e trotskistas – numa mesma coalizão política para enfrentar Nicolas Sarkozy. Além disso, trouxe para o Front alguns companheiros do PS. Vale aqui um destaque: O Partido Comunista Francês (PCF) encontrava-se extremamente fragilizado politicamente. Na ultima eleição presidencial, sua candidata, Marie George Buffet, não conseguiu chegar a 2% dos votos. Nas eleições legislativas, o partido foi incapaz de formar um grupo político no parlamento, por não ter alcançado 5% dos votos, necessários para ultrapassar a “cláusula de barreira”. Perdeu parte de seus principais quadros políticos – que articularam um movimento reformador em 1989, deixaram a agremiação e criaram, em 2010 a FASE – Federação por uma Alternativa Social e Ecológica. Além disso, endividou-se. O fato de integrarem-se agora à Frente de Esquerda, pode significar, para os comunistas, uma ressurreição política.
A questão que se coloca é: quem serão os novos eleitores de Jean-Luc Mélenchon? De quem ele vai tirar votos? Dos eleitores mais à esquerda do PS? Dos dois partidos trotskistas que não conseguem mais motivar seus eleitores? De operários, de ex-militantes do PC que passaram a votar em Marine Le Pen? Dos anarquistas que sempre boicotaram as urnas? Muitos estavam presentes na passeata da Bastilha.
Nos últimos vinte anos, existe uma tendência de aumento da abstenção nas eleições francesas, provavelmente ligada a uma crise da representação política. Em geral, os eleitores da esquerda são os que mais boicotam as urnas. Quem se favorece desta abstenção é normalmente a direita. Este ano, um dado merece atenção: o número de eleitores inscritos para votar caiu 6%! Muitos usam a abstenção como forma de protesto.
No entanto, os eleitores de esquerda não esquecem o “trauma do dia 21 de abril”, que, em 2002, levou o candidato socialista a ser eliminado pela extrema direita no primeiro turno. Este fato, despertou certa mobilização dos eleitores de esquerda, e o medo de uma repetição do mesmo cenário está sempre presente, o que leva muitos a pregarem o voto útil.
Para a esquerda francesa, a situação é mais complexa. Ela sempre foi diversa, rica no enfrentamento das ideias. Entretanto, raramente consegue traçar uma estratégia de governo que respeite sua próprioa pluralidade. Por exemplo, o EELV-Europe, Ecologie, Les Verts, construiu com o PS um “contrato de mandatos” programático para 2012. Todavia, o acordo terminou gerando polêmicas e os verdes acabaram entrando na lógica perversa de distribuição de cadeiras no parlamento, tendo em vista que o PS é majoritário em todo território nacional. Ou seja, a briga pelo poder terminou sendo mais forte que as proposições alternativas que definem um novo projeto de desenvolvimento e sociedade.
A França tem um sistema eleitoral um tanto ambíguo. Mesmo não sendo bipartidário, dada a existência de vários partidos, somente as duas grandes formações políticas monopolizam o debate eleitoral e se alternam no poder. Na esquerda, o PS; na direita o Partido de União por um Movimento Popular- UMP.
A correlação de forças necessária para fortalecer a democracia e a cidadania política é refém de um sistema eleitoral que termina rejeitando o pluralismo político. PS e UMP já vêm dominando o debate político desde outubro, data em que foram decididas as primárias do PS pelo voto direto aberto (com eleição de François Hollande). Já no partido de direita, o candidato legitimado sem votação interna foi Nicolas Sarkozy.
Entretanto, a campanha eleitoral só agora (19 de março) foi oficializada pelo Conselho Constitucional, que aprovou a lista dos candidatos à eleição presidencial. Serão ao todo dez candidatos. Durante os trinta dias anteriores ao primeiro turno, todos deverão ter, por lei, o mesmo tratamento. O espaço midiático até então controlado pelos dois grandes partidos (PS e UMP) deverá ser equilibrado com os pequenos. Os programas políticos e de generalidades, nas rádios e TVs, são obrigados a contar o tempo de intervenção de cada concorrente. O Conselho Superior Audiovisual é que define as regras para garantir a pluralidade da expressão política, definindo o tempo das intervenções, as análises e reportagens políticas. A imprensa escrita não está submetida a este tipo de regulamentação. Os candidatos são livres para criar acessos à comunicação virtual. Todavia, na véspera das eleições todos os sites montados por eles são fechados.
Apesar destes dispositivos, a bipolaridade é uma realidade. A própria imprensa contribui com esta anomalia democrática: o debate sempre gira em torno dos dois principais candidatos. O discurso sugere que apenas eles têm vocação para governar, o que lhes assegura a maior parte dos votos. O apoio aos candidatos de extrema esquerda é, por exemplo, taxado de mero voto de protesto
Estranha concepção da democracia representativa, tendo em vista que os partidos políticos são, no sistema atual, os vetores da democracia. É neles, hoje, que se elaboram as proposições concretas que devem constituir os programas alternativos de governos. São, igualmente, os meios pelos quais os indivíduos podem pesar sobre os serviços públicos, sobre os rumos da vida política de um país. Neste sentido a defesa do pluralismo é a essência do revigoramento da democracia.
Fonte: Opera Mundi
Dossiê Cultura/Fundação Padre Anchieta: Desmonte e privatização
João Brant, Intervozes*
A Fundação Padre Anchieta vive um processo longo de carência de investimentos e de sucateamento. As últimas gestões foram marcadas por escassos recursos orçamentários e, consequentemente, por pouco investimento estrutural. Houve perda cumulativa do potencial criativo das Rádios e TV Cultura. E vale lembrar que a fundação tinha um papel diferenciado na comunicação brasileira, uma referência na TV aberta e gratuita para novos talentos, formatos e modelos.
Hoje, as emissoras possuem pouca dinâmica e estão estranguladas por demissões. São quase nulas em termos de audiência. As Rádios e TV Cultura estão passando por um processo de desmonte e privatização, com a degradação de seu caráter público. A criatividade e a produção de conteúdo – marcas fundamentais dos 43 anos de história da Fundação Padre Anchieta – estão ameaçadas pela transformação do canal de TV em um mero exibidor de material comprado de terceiros.
HISTÓRICO
As gestões anteriores da Fundação, com Marcos Mendonça e Paulo Markun, já demonstravam a carência de investimentos e recursos. Um contrato de gestão que o governo paulista obrigou a Fundação Padre Anchieta a assinar em 2009 já indicava o futuro das Rádios e TV Cultura com minguantes recursos. Este contrato previa a redução gradual de verbas orçamentárias para a TV e o conseqüente aumento da captação publicitária.
O documento, na época aprovado por unanimidade pelo conselho curador da Fundação, mas nunca tornado público, previa que tanto a TV Cultura quanto o governo deveriam cumprir metas e oferecer contrapartidas entre 2009 e 2013. Segundo o documento, o governo diminuiria as verbas que envia para o custeio da fundação (da ordem de R$ 75 milhões para R$ 55 milhões) e o contrato estabelecia metas maiores de captação externa (em publicidade e prestação de serviços). Isso já era um sinal claro que o comando do governo paulista queria gradualmente retirar seu papel da comunicação pública.
Com a eleição de João Sayad, o mesmo contrato de gestão assinado e com plano de metas claras foi deixado de lado. O conteúdo deste contrato não foi publicado, tampouco o documento que o substituiu. A assessoria de imprensa da FPA divulgou várias vezes que houve economia nos últimos meses. Mas vale lembrar que tal redução de gastos foi feita ao custo social de centenas de demissões. O Conselho Curador apenas endossou laconicamente a brutal mudança na programação e nos quadros funcionais.
SAYAD E A PRIVATIZAÇÃO
A gestão do presidente João Sayad, do vice-presidente de conteúdo Fernando Vieira de Melo e do vice-presidente administrativo Ronaldo Bianchi caminhou às escuras para dilapidar o patrimônio público. Sayad optou por transformar a TV Cultura em uma mera exibidora. Cancelou e/ou deixou de renovar contratos de prestação de serviço (TV Justiça, Assembléia de São Paulo, etc), acabou com diversos programas e implantou um programa de demissões em massa.
Em conversas com seu staff, João Sayad já comentou que a TV Cultura deveria caber apenas de um andar de um prédio comercial diante do planejamento que ele implantou. O que se vê é um processo de “privatização” das funções da FPA na comunicação pública. E não se pode descartar também a “estatização” e a “partidarização” destas mesmas funções públicas. A atual gestão retrocedeu a TV Cultura em pelo menos 15 anos com a demissão de profissionais qualificados e a sobrecarga do restante das equipes.
MAIS DE MIL DEMITIDOS
Desde o início da gestão João Sayad, a TV Cultura encolheu drasticamente. Foram mais de mil demitidos, entre celetistas e PJs. Um processo de seleção “pública” foi desenvolvido para a regularização de poucos funcionários. A maioria foi desligada com o fim de programas e dos contratos de prestação de serviços. Os Sindicatos dos Jornalistas e dos Radialistas não têm conseguido reagir às demissões. Seria importante que ao menos divulgassem o saldo consolidado de quantas demissões foram homologadas por eles durante a gestão João Sayad.
EXTINÇÃO DE PROGRAMAS
O trio Sayad-Bianchi-Vieira de Melo extinguiu programas no atacado desde o início da sua gestão. Tentou-se acabar com outros, como o Manos e Minas, mas houve resistência de um público organizado e disposto a cobrar a programação de uma emissora pública. A lista de programas hoje é recheada de produções externas ou de reprises. Pouquíssimo material é feito com produção própria e inédita. A seguir, um resumo dos programas próprios que sucumbiram:
Cultura Retrô – Lançado pela gestão João Sayad em abril de 2011, o programa conduzido pela ex-MTV Marina Person não teve fôlego nem para comemorar um ano de vida. Seu fim foi anunciado em março. A atração revisitava reportagens e entrevistas do arquivo da emissora.
Entrelinhas – Dedicado exclusivamente à literatura, era o único do gênero na TV aberta e foi extinto em março de 2012. Existia desde 2005. A equipe de produção foi desmontada e redirecionada para outros programas. A promessa é integrá-lo à nova reformulação do Metropolis.
Grandes Momentos do Esporte – Também extinto em março de 2012, o programa já estava na mira da gestão Sayad há tempos. A atração perdera tempo na grade e o antigo apresentador, o jornalista Helio Alcântara, foi demitido em 2011. Seu lugar foi ocupado pelos jornalistas Vladir Lemos e Michel Laurence, além do capitão do tri Carlos Alberto Torres.
Letra Livre – Conduzido pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, o programa foi criado em 2008 e promovia a cada edição o debate entre dois escritores consagrados. Foi extinto em junho de 2010.
Login – Inicialmente chamado de Programa Novo, foi criado na gestão de Paulo Markun e era exibido no início da noite. Dedicado ao público jovem, apresentava reportagens, entrevistas, bandas de música e contava com a participação de internautas. Extinto em dezembro de 2010.
Nossa Língua – Criado no início dos anos 2000 sob o comando do Professor Pasquale, o programa virou uma referência sobre o ensino da língua portuguesa na televisão. Extinto na gestão de Marcos Mendonça, retornou em 2008. Depois, reformulado, passou a ser produzido por temporadas. A última, de 26 capítulos, foi exibida em 2011. Não há previsão de retorno.
Vitrine – Com mais de 20 anos de história, foi símbolo de inovação ao tratar de cultura e mídia. Ultimamente era apresentado por Cunha Jr e Carla Fiorito. Foi extinto em março de 2012. A promessa é incorporá-lo à reformulação do programa Metrópolis.
Zoom – Programa semanal dedicado ao cinema, sobretudo à produção brasileira de médias e curtas metragens. Extinto em fevereiro de 2011, teve Flávia Scherner como última apresentadora. À época de sua extinção, a assessoria da FPA anunciou que ele viraria um quadro do Metropolis. Foram palavras ao vento.
A’uwe – Único programa da TV no mundo dedicado exclusivamente à cultura indígena. Apresentado pelo ator Marcos Palmeira, o programa foi extinto em 2010 após críticas da cúpula da gestão Sayad que o via como uma espécie de TV institucional da Funai.
Autor por autor – Série coproduzida com o canal SescTV e que apresentava a biografia e a obra de autores consagrados da literatura brasileira. Também extinto em 2010 sob o argumento de que era desinteressante.
Teatro Rá-Tim-Bum – Série de programas dedicados às crianças, com histórias de diversos autores e épocas. Extinto em 2010.
Lá e Cá – Parceria da TV Cultura e da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) com o objetivo de compartilham visões, semelhanças e diferenças de brasileiros e portugueses. Primeira temporada tinha 13 episódios de 30 minutos. Foi abandonado com a saída do ex-presidente Paulo Markun.
ERROS DE GESTÃO NA TV
Roda Viva – Na reformulação do programa de debates e entrevistas, Marília Gabriela assumiu o posto de condutora da atração. A transformação, no entanto, foi mais profunda, resultando na completa desfiguração do programa. Um ano após a mudança, a direção da emissora recuou e restabeleceu o formato original.
Jornal da Cultura – Com o excesso de demissões e o sucateamento da estrutura técnica, o jornalístico perdeu a força das reportagens, que praticamente deixaram de ser exibidas. No ar, a âncora Maria Cristina Poli, divide a bancada com um time de comentaristas que se reveza para colher os louros do traço no Ibope.
Metropolis – Além de ter sido jogado para o final de noite, o programa também sofreu uma completa desestruturação. E esta é a segunda reformulação do programa dentro da gestão Sayad. Cadão Volpato foi contratado e demitido na mesma gestão. Hoje, o programa exibe pouquíssimas reportagens, há anos não possui capacidade técnica para links ao vivo e acabou se limitando a um talk-show de temas culturais.
Música Clássica – Perdeu espaço na grade de programação. A gravação de concertos de orquestras brasileira passou a ser feito com menor regularidade. Em vez de exibir material novo, atualmente aposta em muitas reprises e na veiculação de produções estrangeiras.
TV Justiça e TV Assembleia – Terminar com os contratos de prestação de serviços não só cortou receitas para a FPA como acelerou o processo de transformação da emissora em mera exibidora. Demissões foram feitas as centenas com o fim deste contrato. Os valores e o conteúdo dos acordos nunca foram apresentados publicamente.
Teatro Franco Zampari – A gestão Sayad pretende doar o Teatro Franco Zampari, onde são gravados vários programas da TV Cultura. O objetivo é desfazer do patrimônio sob o argumento de que a estrutura é onerosa. As negociações estão em estado avançado com a Associação Paulista de Amigos da Arte (APAA).
Carnaval 2012 – A transmissão de 9 horas do Carnaval 2012 de São Paulo é um case importante desta fase da FPA. A negociação dos direitos de transmissão com o SBT e Globo foram suspeitas. A TV Cultura disponibilizou equipamentos e equipes para a transmissão do Grupo de Acesso e do Desfile das Campeãs, mas só transmitiu o primeiro. O Desfile das Campeãs ficou de presente para o SBT, incluindo a operação e o uso de equipamentos da FPA. Os valores da negociação não foram divulgados.
Portal Cmais – Lançado com alarde pela atual gestão, o portal tem uma produção ínfima e extremamente dependente das equipes já sobrecarregadas dos programas. A carente infra-estrutura de TI o deixa fora do ar frequentemente. E a equipe reduzida de funcionários propicia erros crassos, como a transmissão por horas do streamming de vídeo do SBT no lugar da programação ao vivo da própria TV Cultura (dia 29 de fevereiro).
JORNALISMO FRACO NA TV
O acordo para a exibição de um programa da TV Folha e a possível exibição de um televisivo da Revista Veja estão inseridas no fraco papel que o jornalismo da emissora pública possui hoje. A fragilidade do jornalismo da TV é evidente diante da agenda política do PSDB. Não há crítica, não há profundidade, não há debates importantes no cotidiano. Por ter um dos principais títulos jornalísticos da história recente – o programa de entrevistas Roda Viva – e ser o local de trabalho do jornalista Vladimir Herzog quando foi preso e assassinado pela ditadura, a redação da TV Cultura deveria, sim, aparecer no foco do debates das comunicações.
O acordo com a Folha de S.Paulo expôs a “privatização” da TV e a simpatia política do governo com este veículo. Se, de acordo com Artigo 22º, Inciso 6º, do Estatuto da Fundação Padre Anchieta, o Conselho Curador “deve aprovar a celebração de convênios ou acordos com órgãos ou instituições públicas ou privadas, concernentes à programação”, a dúvida que fica é: esse acordo, redigido e formalizado, foi aprovado pelo Conselho? Por que não foi divulgado? Quais os valores envolvidos na negociação? Os conselheiros precisam publicizar essas informações.
A proposta de lotear a programação jornalística da TV Cultura é um desrespeito com a noção de como o Estado deve promover e incentivar o pensamento crítico e a liberdade de expressão. Abrir espaços para enlatados produzidos por terceiros de acordo com critérios editoriais de particulares é jogar uma pá de cal na agonizante história do jornalismo da emissora pública. O Brasil que tanto precisa de exemplos fortes e maduros no jornalismo público – porque ainda engatinha em todos – vai desprezar mais uma alternativa.
RÁDIO CULTURA BRASIL
É a rádio de música brasileira da FPA, transmitida em AM. É de conhecimento de todos a importância cultural e educativa do trabalho realizado na emissora. Da seriedade da produção com a pesquisa à informação jornalística transmitida aos ouvintes. A equipe de produção foi achatada na atual gestão com fechamento de vagas e com demissões. Em abril de 2012, a equipe foi reduzida a cinco apresentadores, um diretor de programas, um assistente, três jornalistas e cinco estagiários. A equipe técnica também sofreu cortes e acumula as operações da rádio AM e da Rádio Cultura FM (música erudita).
Todos os funcionários trabalham mais horas do que as contratadas. Alguns programas gravados da Rádio Cultura Brasil (AM) são produzidos por funcionários da Cultura FM e vice-versa. Não existem mais programas gravados na Rádio Cultura Brasil, com exceção aos retransmitidos – o do produtor e pesquisador Solano Ribeiro (A Nova Música do Brasil) e o Reggae de Bamba (Jai Mahal). A programação musical é reprisada à exaustão e os programas ao vivo não têm mais entrevistas no estúdio com a presença do convidado. São usadas apenas entrevistas por telefone (com exceção ao programa Cultura Livre, que tem interesse da TV, mas cuja produção em vídeo também está paralisada).
A Rádio Cultura Brasil tem problemas técnicos de irradiação do sinal há pelo menos 20 anos. A única tentativa de solucionar esta questão foi na gestão de Marcos Mendonça. Contudo, a escolha de uma aparelhagem inadequada tirou o sinal das regiões nas quais a emissora era tradicionalmente ouvida e ampliou-se em duas regiões onde a rádio não chegava. Sem qualquer divulgação ou campanha, houve perda de audiência.
Nem a iniciativa do lançamento do Portal Cultura Brasil (muito pertinente em tempos de convergência digital) vingou. A proposta inicial de reunir todo o conteúdo musical da Rádio Cultura Brasil, da Cultura FM e dos programas musicais da TV Cultura não mais funciona regularmente. Hoje, o abastecimento de conteúdo do site é quase nulo.
* Dossiê Cultura/Fundação Padre Anchieta foi elaborado coletivamente por ex-funcionários, ex-colaboradores e observadores atentos à situação por lá, entre os quais João Brant, do Intervozes.
Dr. Rosinha: A caça do gay
Li o artigo “La caza del gay” e não posso me conter, sou obrigado a divulgá-lo.
O escritor Mario Vargas Llosa, preocupado com os direitos humanos e a defesa da vida, escreveu no último dia 8 de abril, no “El País” (Espanha), um texto contra o preconceito e a impunidade. “La caza del gay” é um grito que Llosa dá, denunciando o assassinato de homossexuais na América Latina.
Conta ele que, na noite do último dia 3 de março, “quatro ‘neonazistas’ chilenos, liderados por um sujeito de apelido Pato Core, encontram deitado próximo ao Parque Borja, de Santiago, um jovem de nome Daniel Zamudio, ativista homossexual de 24 anos, que trabalhava como vendedor em uma loja de roupas. Durante seis horas, enquanto bebiam e se divertiam, dedicaram a dar socos e pontapés em Daniel, a apedrejá-lo e a desenhar-lhe, com cacos de vidro, suásticas no peito e nas costas.”
Ao amanhecer, Daniel foi levado para o hospital, onde veio a falecer após agonizar por 25 dias.
Este é mais um crime homofóbico. Homofobia esta que, pela discriminação e ódio aos homossexuais, tem se multiplicado em toda a América Latina.
Informa Vargas Llosa que Sebastián Piñera, presidente do Chile, além de reclamar uma punição exemplar aos criminosos, pediu ao parlamento para que aprove com urgência um projeto de lei que vegeta há sete anos no legislativo chileno. Está parado nas comissões por “temor de certos legisladores conservadores de que, aprovada esta lei, abrirá o caminho para o matrimonio homossexual”.
No Brasil também há um projeto de lei que condena a homofobia, e que tramita no Congresso Nacional há mais de 10 anos. No momento, pela mesma razão chilena, está parado no Senado da República. Enquanto isto, homossexuais são diariamente assassinados e agredidos, física e psicologicamente, em todo o país.
E, sobre estes crimes, os “homens (parlamentares) de boa fé”, que se opõem à aprovação do projeto, se calam. Qualquer semelhança entre Brasil e Chile, neste caso, não é mera coincidência.
“O mais fácil e o mais hipócrita é atribuir a morte de Daniel Zamudio só aos pobres diabos que se autodenominam neonazistas sem saberem sequer o que foi o nazismo. Esses tipos de crimes são frutos da repelente cultura de antiga tradição que apresenta o gay e a lésbica como enfermos ou depravados que devem ser mantidos a distância dos seres normais porque corrompem o corpo social e induzem o pecado e a desintegração moral e física.”
“A ideia contra os homossexuais e o homossexualismo é instalada, ou melhor, é ensinada na escola, é alimentada no seio das famílias, se predica nos púlpitos, se difundem nos meios de comunicação, aparece nos discursos dos políticos, nos programas de rádio e televisão e nas comédias teatrais, onde os gays e lésbicas são sempre personagens grotescos, anômalos, ridículos e perigosos, merecedores do desprezo e de rechaço dos seres decentes, normais e corretos.”
Llosa acerta no diagnóstico: a homofobia começa dentro de casa, no seio sagrado da família, é ensinada nas escolas e alimentada dentro de grande parte das igrejas.
Aparece semanalmente nos discurso e prática de muitos políticos, por isso não se aprova o projeto que criminaliza a homofobia, nem tampouco se permite a execução de políticas públicas de combate à homofobia.
Em seu artigo, Llosa relata também um fato ocorrido em Lima. Yefri Peña foi atacado na capital peruana por cinco ‘machos’ que lhe desfiguraram o rosto e o corpo, com o bico de uma garrafa quebrada. Por ser um(a) travesti, os policiais negaram auxílio e, no hospital para onde foi levado(a), os médicos também se negaram a atendê-lo(a), por considerá-lo(a) ‘um foco infeccioso’.
Sem dúvida, este e outros são casos atrozes, mas “seguramente o mais terrível de ser lésbica, gay ou transexual nesses países é a condenação cotidiana, a insegurança, medo, a consciência permanente de ser considerado (e chegar a sentir-se) um réprobo, um anormal, um monstro”.
“Quantos jovens atormentados por esta censura social de que são vitimas os homossexuais são empurrados ao suicídio ou a padecer de traumas que arruinaram suas vidas?”, pergunta Llosa. Com certeza, milhares no mundo.
Caro leitor ou cara leitora, as frases entre aspas e em itálico foram traduzidas por mim, mas, pela importância das próximas e por medo de distorcê-las, reproduzo-as em castelhano.
“Ante la homofobia, las ideologías políticas se funden en un solo ente de prejuicio y estupidez. Porque, en lo que se refiere a la homofobia, la izquierda y la derecha se confunden como una sola entidad devastada por el prejuicio y la estupidez.
El asunto no es político, sino religioso y cultural. Fuimos educados desde tiempos inmemoriales en la peregrina idea de que hay una ortodoxia sexual de la que sólo se apartan los pervertidos y los locos y enfermos, y hemos venido transmitiendo ese disparate aberrante a nuestros hijos, nietos y bisnietos, ayudados por los dogmas de la religión y los códigos morales y costumbres entronizados. Tenemos miedo al sexo y nos cuesta aceptar que en ese incierto dominio hay opciones diversas y variantes que deben ser aceptadas como manifestaciones de la rica diversidad humana. Y que en este aspecto de la condición de hombres y mujeres también la libertad debe reinar, permitiendo que, en la vida sexual, cada cual elija su conducta y vocación sin otra limitación que el respeto y la aquiescencia del prójimo.
Las minorías que comienzan por aceptar que una lesbiana o un gay son tan normales como un heterosexual, y que por lo tanto se les debe reconocer los mismos derechos que a aquél —como contraer matrimonio y adoptar niños, por ejemplo— son todavía reticentes a dar la batalla a favor de las minorías sexuales, porque saben que ganar esa contienda será como mover montañas, luchar contra un peso muerto que nace en ese primitivo rechazo del “otro”, del que es diferente, por el color de su piel, sus costumbres, su lengua y sus creencias y que es la fuente nutricia de las guerras, los genocidios y los holocaustos que llenan de sangre y cadáveres la historia de la humanidad.”
Pois bem, enquanto predominarem a estupidez e a hipocrisia entre a maioria dos “homens de boa fé”, homossexuais continuarão sendo assassinados.
Dr. Rosinha, médico com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, é deputado federal (PT-PR). No twitter: @DrRosinha
Fonte: Viomundo
DEPOIS DA PRIMAVERA ÁRABE, AUMENTAM ATAQUES AMERICANOS NO IÊMEN
Uma investigação do Bureau of Investigative Journalism, parceiro da Pública, revelou que pelo menos 27 ataques envolvendo mísseis cruzadores, aeronaves, aviões não tripulados ou bombardeios navais aconteceram na volátil nação do Golfo Pérsico até agora, matando centenas de supostos militantes ligados à facção regional da Al-Qaeda. A reportagem descobriu também que pelo menos 55 civis foram mortos nesses ataques.
Em 30 de março dois ataques de aviões sem tripulação – controlados remotamente – atingiram um veículo e uma casa em Azan, na província de Shabwa, na região central do país. Cerca de cinco supostos militantes morreram. Um segundo veículo, que passava ao lado, também foi atingido, matando um civil e ferindo pelo menos cinco, segundo oficiais, médicos e testemunhas.
Pelo menos seis ataques americanos – alguns envolvendo mais de um alvo – ocorreram no Iêmen apenas em março de 2012, em apoio à ofensiva contra alguns militantes em regiões específicas. Em comparação, as áreas tribais do Paquistão (que é o epicentro da controversa guerra de aviões controlados remotamente da CIA) sofreram quatro ataques em março.
A recente onda de ataques parece relacionada à nomeação do novo presidente, Abed Rabbo Mansour Hadi. Em seu discurso de posse, ele prometeu a “continuidade da guerra contra a Al-Qaeda como um dever religioso e civil”.
Apesar de vários relatos confirmados de ação militar americana no Iêmen, os EUA raramente reconhecem sua guerra secreta. Um porta-voz do Departamento de Estado, falando nos bastidores, disse apenas: “Eu indico você ao governo do Iêmen para mais informações sobre seus esforços no contraterrorismo”.
Centenas de mortos
Uma detalhada observação da atividade militar americana no Iêmen ao longo de nove anos revela que a maioria dos ataques – por volta de 35 – aconteceram depois de maio de 2011, ao mesmo tempo em que aumentaram os protestos relacionados à Primavera Árabe no país. Os protestos no país tiveram início quase ao mesmo tempo do que no Egito. Depois de meses de confrontos, o presidente Ali Abdullah Saleh, que governou o Iêmen por 33 anos, deixou o poder em fevereiro deste ano, após um acordo que lhe garantiu imunidade contra processos futuros. Antes de deixar o poder, ele recebeu tratamento médico nos Estados Unidos.
Total de ataques americanos: de 27 a 45 (alguns dele com mais de um alvo). Desses, cerca de 35 desde maio de 2011
Total de mortos: de 280 a 522
Supostamente civis: 55 a 105
Dentre todos estes ataques, apenas um ocorreu antes do governo Obama, que desenvolveu um interesse pessoal na campanha do Iêmen. Quando assumiu, a Al-Qaeda na Península Arábe (AQAP) cresceu a ponto de se tornar, nas palavras dele, “uma rede de violência e terror” que atraiu de cidadãos americanos para a sua causa, incluindo o clérigo radical Anwar AL-Awlaki. A AQAP começou a publicar revistas ideológicas online em inglês e estaria por trás de tentativas de ataques terroristas contra os EUA, o Reino Unido e seus aliados.
Com a CIA profundamente envolvida no Iraque e Paquistão, o trabalho de desmantelamento da AQAP foi transferido à Joint Special Operations Command (JSOC), a elite do Pentágono – mesma unidade que capturou Saddam Hussein e matou Osama bin Laden.
Mas, desde o começo, a controvérsia reina nas operações da JSOC.
Um massacre a ser esquecido
Em 17 de dezembro de 2009, tendo como base a informação de que um encontro da AQAP aconteceria no sul do deserto do Iêmen, a JSOC lançou pelo menos um míssil cruzador com bombas alojadas. Uma comissão parlamentar iemenita descobriu mais tarde que 14 supostos militantes morreram no ataque. Mas também 44 civis.
Uma cópia do relatório da comissão obtida pelo Bureau identifica por nome todos os civis mortos, que inclui cinco mulheres grávidas e 22 crianças, sendo a mais jovem de apenas um ano de idade. A comissão descobriu que oito famílias foram efetivamente eliminadas, embora não atribua a culpa nem às forças americanas nem iemenitas.
Dois anos depois, os EUA não confirmem nem negam investigações sobre estas mortes, ou se alguma compensação foi dada aos familiares das vítimas. O Pentágono, o Comendo Central do Exército dos EUA (Centcom), o Departamento de Estado e o Comitê de Forças Armadas do Senado americano se negaram a comentar o assunto.
Um porta-voz do Sheikh Himir Al-Ahmar, presidente da comissão e porta-voz adjunto do Iêmen, disse ao Bureau: “As famílias das vítimas estão de fato tendo ressarcimento apropriado (de acordo com os padrões de indenizações concedidas a vítimas no Iêmen). As autoridades americanas não se envolveram no processo de qualquer modo”.
Em contrapartida, famílias atingidas pela matança realizada por um soldado americano no Afeganistão receberam 50 mil dólares por cada vítima.
A recusa americana em reconhecer o ataque deu-se depois de um telegrama diplomático secreto divulgado pelo WikiLeaks revelar que o então chefe do Centcom, general David Petraeus – agora diretor da CIA – e o presidente do Iêmen e primeiro-ministro na época, Ali Abdullah Saleh procuraram esconder o papel dos EUA no incidente.
De acordo com o despacho secreto, “[Presidente] Saleh lamentou o uso de mísseis cruzadores ‘que não são muito precisos’” e deu boas vindas ao uso de aeronaves equipadas com bombas de precisão em substituição a eles. “Nós vamos continuar a dizer que as bombas são nossas, não suas’, disse Saleh, sugerindo que o vice-premier Alimi teria feito piada quando ele ‘mentiu’ ao dizer ao parlamento que as bombas em Arhab, Abyan e Shebwa eram fabricadas nos EUA, mas lançadas pela ROYG”.
A Anistia Internacional, que realiza sua própria investigação sobre o ataque de dezembro de 2009, considerou que os EUA falharam em investigar relatórios confiáveis de mortes de civis. “Com um aumento em tais operações em lugares como o Iêmen, a menos que alguém busque investigar quem foi morto, o porquê, e quais precauções foram tomadas para proteger civis, tais enganos podem ser repetidos no futuro”, disse Philip Luther, diretor do programa do Oriente Médio da Anistia.
Houve outros erros, também, do Pentágono. Quando suas Forças Especiais de elite atingiram um suposto comboio de militantes em maio de 2010, mataram na verdade o vice-governador popular da região, Jaber AL-Shabwani. Este erro levou a uma pausa de um ano nos ataques americanos, diante de fortes protestos das comunidades locais.
Foi necessária a agitação da Primavera Árabe para que os EUA voltassem ao ataque. Enquanto o povo do Iêmen revoltava-se contra o presidente Saleh e seus aliados, a JSOC e os aviões por controle remoto da CIA, com equipamentos da marinha e aeronáutica americana, tomaram os céus. Desde então, o presidente Obama tem lutado uma guerra praticamente desconhecida no Iêmen.
A força aérea sucateada do Iêmen
Pelo menos 21 ataques americanos ocorreram no Iêmen desde maio de 2011, segundo apurou o Bureau, estima-se em 35 o total. Mas os relatórios são frequentemente confusos, e os governos americano e iemenita não se mostram muito dispostos a esclarecer os eventos.
Existem alegações de que a Força Aérea do Iêmen realizou alguns ataques cirúrgicos. Mas uma investigação da capacidade iemenita revela que está sucateada, com equipamentos de baixa tecnologia, e desmantelada pela recente agitação política. Provavelmente oss EUA estão por trás dos ataques cirúrgicos do Iêmen.
Alan Warnes, correspondente da publicação militar AirForces Monthly, diz que a força aérea iemenita é incapaz de realizar ataques de precisão ou noturnos: “A única aeronave que eles têm capaz de voar à noite são caças bastante antiquados. Eu acho que são os americanos que estão fazendo isso em vez dos iemenitas”.
A recente cooperação conjunta entre a CIA e a JSOC parece estar valendo a pena para Obama. Segundo relatos, alguns dos 24 militantes declarados da Al-Qaeda na região morreram desde a última primavera. O grupo está praticamente sob ataque constante. Mortes de civis são pouco relatadas – embora tenha havido alguns “erros”.
Para Obama, seu maior sucesso no Iêmen veio em 30 de setembro do ano passado, quando dois cidadãos americanos, entre os quatro militantes mais valiosos da Al Qaeda, foram mortos. Anwar Al Awlaki, o clérigo radical, morreu com Samir Khan, editor da revista Inspire, uma publicação ideológica em inglês da AQAP.
Dias depois, um ataque em sequência matou outros militantes – e também o filho de 16 anos de Awlaki e seu sobrinho de 17 anos. A AQAP também perdeu quase completamente sua possibilidade de se comunicar com o público em língua inglesa. Mas essas mortes de cidadãos americanos continuam a gerar muita controvérsia nos Estados Unidos.
Fonte: Agência Pública
Em São Paulo, a saúde é caso de polícia
“Operação Sufoco” mostrou despreparo para lidar com os dependentes químicos na Cracolândia
Por Ricardo Rossetto
Três meses depois de implantado, o Plano de Ação Integrada Centro Legal, que envolve as polícias e os órgãos estaduais e municipais ligados à segurança, saúde e assistência social, registra um balanço pouco animador. Apesar das quase 30 mil abordagens policiais na estigmatizada região da Cracolândia (Nova Luz) e das mais de 25 mil abordagens de agentes de saúde, dados do último balanço da Polícia Militar mostram que pouco foi conquistado no que tange à recuperação psicossocial dos dependentes químicos. Para especialistas, o maior erro do Governo do Estado foi pautar a atuação a partir de um pressuposto de que a degradante situação no local era provocada pela presença da droga.
Cerca de 400 usuários ocupavam as áreas em torno das avenidas Duque de Caxias, Mauá, Cásper Líbero e São João. Depois da ação das forças públicas, a partir do dia 3 de janeiro, os dependentes se espalharam por diversos bairros da região, criando inúmeras minicracolândias. O saldo de 304 presos, mais da metade da população local, denota a ineficiência do plano, também conhecido como Operação Sufoco, que trata com mecanismos coercitivos um problema de saúde pública, ao confundir usuários com traficantes.
Segundo o desembargador Antônio Malheiros, do Ministério Público do Estado de São Paulo, a ação atrapalhou inúmeros projetos sociais e agentes de saúde, que acompanhavam, havia algum tempo, os dependentes locais e buscavam criar vínculos para encaminhá-los a um tratamento. “A ação atropelou os trabalhos das equipes que atuavam no local. Uma série de audiências de rua para decidir encaminhamentos a crianças e adolescentes da região estava prevista. Agora, temos de repensar a estratégia. A ação foi desastrosa e boicotou um trabalho que vinha sendo feito desde 2009 nas áreas de saúde e assistência social.”
O vereador Jamil Murad (PCdoB), ex-diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo, segue a mesma linha de Malheiros e condena a ação precipitada da polícia: “O poder do Estado pulou na frente com o problema da repressão, colocando a polícia na frente da operação. Estive presente no dia que a operação na Cracolândia começou, e conversei com o pessoal da saúde [da área de assistência social], por telefone. Eles não participavam daquilo. O município não estava integrado à ação da PM. A ação foi baseada numa tese errada de provocar dor e sofrimentos aos dependentes”, disse Murad.
Procissão de zumbis
Expulsos de um cortiço desolador onde se aglomeravam nas imediações da Rua Helvétia, os craqueiros passaram a vagar pelas ruas do centro, envoltos em cobertores que lhes curvam o dorso magro e frágil. O rosto, cadavérico, traz um olhar melancólico de quem quer se tratar, mas não consegue largar o vício.
As 409 internações involuntárias contabilizadas até então, não contribuem para configurar a ideia de um cenário propício à resolução dessa chaga social que chamou a atenção de todo o País. Pelo contrário. Segundo pesquisas do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes, coordenado pelo médico e professor de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Dariu Xavier da Silveira, 98% das pessoas que passam por esse tipo de tratamento compulsório recaem nas drogas depois que termina o período de internação. Para o professor, os trabalhos de maior sucesso na recuperação desses indivíduos são os que adotam o modelo ambulatorial, realizado por equipes multidisciplinares. Nesses locais, os usuários vão se acostumando paulatinamente à abstinência da droga, e se readaptam ao convívio em sociedade.
Carlos Neder, médico e vereador de São Paulo pelo PT, também é contrário a qualquer forma de internação não consensual. “Sou contrário à ideia de internação compulsória e mecanismos coercitivos. A lógica e a concepção que está implementada hoje leva a uma dificuldade adicional para fazer uma abordagem diferenciada, que não seja da repressão ou da atenção médica assistencial curativa”, explica Neder. “Se nós tivéssemos essas equipes médicas multiprofissionais preservadas, com participação do psicólogo, do assistente social, do psiquiatra e de tantas outras categorias, teríamos uma condição melhor de fazer esse tipo de abordagem com os dependentes, inclusive com equipes dos agentes comunitários de saúde.”
Infraestrutura atual
Gonzalo Vecina Neto, médico, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês, ressalta o subfinanciamento do sistema de saúde pelo poder público como um dos obstáculos à melhoria da eficiência e da atenção à saúde da população. Para ele, deve haver uma integralidade entre as três esferas do governo (federal, estadual e municipal), que devem unir forças para combater o problema.
Apesar de a presidenta Dilma Rousseff ter lançado, em dezembro do ano passado, o Plano de Enfrentamento do Usuário de Crack e Outras Drogas, o País, em termos gerais, ainda não dispõe da infraestrutura necessária para tratar os dependentes de substância químicas. Os hospitais públicos não estão preparados para recebê-los, e os poucos centros de internação mantidos pelo governo são incapazes de suprir a demanda.
Um estudo da Confederação Nacional de Municípios traz à tona a dimensão do problema: 98% das cidades brasileiras possuem problemas com usuários de crack, mas poucas, de fato, têm programas para resolvê-los.
“O crack é a ponta do iceberg. A sociedade trata de forma muito hipócrita a questão das drogas. Com repressão não tem solução”, pondera Vecina. “As pessoas têm o direito a usar o que quiserem, com a consequência da sua decisão. Enquanto olharmos pra essa questão com o olhar da polícia, com um olhar higienista, vamos ficar limpando gelo”, conclui.
Entregue com mais de um mês de atraso, o Complexo Prates, no Bairro do Bom Retiro, é o primeiro centro que reúne ações de saúde pública e de assistência social no tratamento de dependentes químicos na cidade de São Paulo. No local, até 1.200 pessoas poderão ser atendidas diariamente, em especial os viciados das regiões da cracolândia.
A secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Alda Marco Antônio, reconhece que é difícil resolver o problema dos dependentes, mas valoriza a criação do complexo como um meio que facilitará a recuperação dos usuários de drogas. “É difícil dizer que os problemas serão resolvidos definitivamente, mas, agora, a cidade de São Paulo tem um equipamento que vai buscar esse objetivo, que vai atrás dessas pessoas e tentar atraí-las para o tratamento.”
* Este texto foi produzido no curso de jornalismo “Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro, uma parceria entre a Oboré Projetos Especiais de Comunicação e Artes e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), realizado em janeiro e fevereiro de 2012.
Fonte: SPressoSP
Venezuela, dez anos após o golpe
Há exatos dez anos, entre os dias 11 e 13 de abril de 2002, um substantivo próprio quase desconhecido começou a figurar de modo recorrente nos noticiários políticos do mundo todo: Venezuela. Até então, tal nome era sinônimo de petróleo e de beldades bem sucedidas em concursos internacionais. Entretanto, depois dessas históricas e tensas 72 horas, tudo mudou. O país sul-americano passou a concentrar o interesse de analistas e a despertar as mais diferentes paixões.
O que aconteceu? Por que a “mais madura” das democracias da região passava por tamanha instabilidade? Por que alguns militares apoiaram um golpe contra um ex-companheiro de armas? Por que “lideranças civis” apresentadas como responsáveis e bem intencionadas rompiam de forma tão violenta com a legalidade? E por que as grandes massas se mobilizaram a ponto de reconduzir o presidente da República deposto ao poder, garantindo a continuidade da democracia? Afinal, quem era Hugo Chávez?
As respostas do mainstream apelaram para o argumento mais convencional: “populismo”! Tal como “um raio que cai de um céu azul”, Chávez apareceu no cenário político venezuelano destruindo as “boas práticas de governo” com políticas supostamente demagógicas e irresponsáveis. Boa parte da esquerda, por sua vez, encontrava-se em dificuldade para se posicionar de maneira mais firme e apresentar respostas alternativas. Embora seja um país vizinho, a Venezuela tinha uma trajetória muito pouco conhecida pelos brasileiros. Talvez isso se deva à falta de acontecimentos espetaculares durante boa parte do regime puntofijista (1958-1989). Nada de rupturas institucionais, tampouco grandes projetos populares. Ambiente bem diferente do que se via no subcontinente: revoluções, contrarrevoluções, governos populares, ditaduras militares...
A Venezuela e os venezuelanos ficaram de fora dos principais círculos de lideranças latino-americanas que, ao amargarem o exílio, pensaram e sofreram juntos seus problemas. Vista de longe, parecia um país “excepcional”: democracia liberal e ausência de restrição econômica externa. Era a sombra da Venezuela Saudita: petróleo e dólares. Os que haviam visitado a exuberante Caracas da década de 1970 pareciam certos de que os venezuelanos estavam a um passo de romper a camisa de força do subdesenvolvimento. Mas poucos acompanharam o que aconteceu depois.
Baixa nos preços da energia, explosão da dívida externa. E a Venezuela mergulhou de cabeça no cenário latino-americano da década perdida. A mistura do empobrecimento com as políticas de ajuste do FMI levaram ao Caracazo de 1989, quando a população se rebelou contra o projeto neoliberal. Os militares tiveram de sair às ruas para reprimir a população. A brutalidade, a corrupção e o sentimento de decadência criaram constrangimento no próprio seio da Força Armada: vários grupos de oficiais se articulam em movimentos clandestinos. Um deles era liderado pelo tenente- coronel Hugo Chávez, que deflagrou sublevação militar contra o governo em 1992: com forte discurso moralista e de tom claramente antineoliberal, defendia uma constituinte para a “refundação” do país. Ao mesmo tempo em que foi militarmente derrotado, o movimento de Chávez conquistou importante vitória política. Garantiu a criação de uma liderança antiestablishment, que se contrapunha a todo o modelo que se encontrava em colapso.
Por outro caminho
Depois de liberado da prisão, o ex-militar se convenceu que a melhor maneira de implantar o seu projeto seria pela via institucional. Em 1998, venceu eleições para a presidência da República com 56% dos votos. É importante destacar o simbolismo dessa vitória: num momento em que FHC começava seu segundo mandato, que a Argentina de Menem era apresentada pelo FMI como um modelo a ser seguido e que Fujimori governava absoluto no Peru, Chávez assumia o poder com um discurso muito crítico em relação ao Consenso de Washington. Estava sozinho, remando contra a maré.
A ausência de um partido ou de uma sólida base social organizada fez com que o novo governo estimulasse a participação direta para promover reformas estruturais. A começar pela mais importante: a constitucional. Por plebiscito, foi aprovada a convocação de uma Assembleia Constituinte. A nova Carta foi apresentada e referendada por voto direto. Depois disso, Chávez decidiu levar a cabo mudanças mais profundas: publicou, no final de 2001, 49 decretos- lei, que deveriam regulamentar várias matérias previstas na nova Constituição, e que incluíam temas relevantes como petróleo e gás, terras, bancos, entre outros. O controle efetivo sobre a estatal de petróleo PDVSA aparecia como um objetivo fundamental.
Golpismo
Foi a partir desse momento que a direita começou a articular uma série de iniciativas para derrubar o presidente. Muitos dos principais executivos da PDVSA se recusaram a aceitar as mudanças. Diante de sua demissão, a oposição convocou a segunda greve geral em menos de seis meses, promovendo, também, manifestação pedindo pela renúncia de Chávez. Em meio à manifestação, no dia 11 de abril de 2002, levaram a termo, junto com alguns militares e espetacular sustentação midiática, um golpe de Estado. Uma suposta renúncia do presidente foi anunciada, enquanto Pedro Carmona Estanca, presidente da principal federação patronal do país, foi empossado em governo dito “provisório”. Carmona recebeu apoio imediato do FMI e dos governos dos Estados Unidos e da Espanha: no dia 12 de abril, o Fundo anunciou a disponibilidade de recursos financeiros para a Venezuela. Algumas horas depois, a visita do embaixador norte-americano ao ex-líder empresarial representou o reconhecimento implícito de seu país ao governo golpista.
O “governo” Carmona, que durou menos de dois dias, adotou medidas duras: derrogou a Constituição aprovada em referendo popular, dissolveu a Assembleia Nacional e reservou-se o direito de destituir governadores e prefeitos eleitos. Tratava-se, portanto, de uma grave violação da legalidade e de uma forte orientação autoritária, que ameaçava, ademais, repercutir regionalmente. A conjuntura sul-americana de 2002 já não era a mesma de 1999: o colapso da economia argentina colocava em xeque os ensinamentos do neoliberalismo, ao mesmo tempo em que Fujimori havia caído no Peru e que Lula despontava como o favorito nas eleições presidenciais do Brasil. A vitória da violência política da direita na Venezuela contra um projeto de esquerda em ascensão poderia servir de paradigma para as forças conservadoras dos demais países, fortalecendo práticas políticas que ameaçavam diretamente a democracia.
Resistências
A mobilização dos setores populares e a organização de amplo movimento cívico- militar, entretanto, garantiram a recondução de Hugo Chávez à presidência da República em 13 de abril de 2002. Nesse sentido, mais do que qualquer coisa, as 72 horas que transcorreram nesses dias de abril de 2002 significaram a afirmação de uma tendência, uma reversão da corrente: a esquerda poderia ser forte o sufi ciente para se apresentar como alternativa política nos países em crise e para evitar possíveis investidas extralegais das elites tradicionais. Após a reversão do golpe, forças políticas progressistas alcançaram o poder por meio de eleições democráticas em vários países da região – Brasil (2002), Argentina (2003), Uruguai (2004), Bolívia (2005), Equador (2006), Nicarágua (2006), Paraguai (2008), El Salvador (2009) e Peru (2011). E onde quer que na América do Sul a direita tenha tentado reproduzir a lógica da desestabilização, foi derrotada antes mesmo de chegar ao golpe – mais uma vez na própria Venezuela (2002-2003), desta vez pela via econômica de um prolongado locaute, no Brasil (2005), na Bolívia (2008), na Argentina (2009-2010), no Paraguai (2010) e no Equador (2010). Não se pode esquecer, porém, do exitoso golpe conservador em Honduras (2009).
O impacto dessa tentativa de golpe na política exterior da Venezuela também foi grande. A rede de relacionamentos internacionais da oposição incluía alguns dos parceiros mais tradicionais do país, como os Estados Unidos e a Espanha, enquanto os países do Sul, incluindo o Brasil, apoiaram o governo eleito. No locaute contra o governo Chávez, em dezembro de 2002, o Brasil enviou navio petroleiro para garantir o fornecimento de gasolina para a Venezuela.
Economias hermanas
A partir do período de maior estabilidade da Venezuela bolivariana, o fortalecimento das relações bilaterais atingiu outro patamar. Em 2005, firmou-se Aliança Estratégica entre Lula e Chávez. Acordou-se, inclusive, a realização de encontros presidenciais periódicos. Foram 28 desde então. A corrente de comércio se multiplicou mais de sete vezes. A presença brasileira se ampliou, assim como a cooperação técnica, com instalação de representações de agências públicas brasileiras na Venezuela.
A Embrapa coopera para o desenvolvimento agrícola de um país com enormes potencialidades, mas que importa 70% dos alimentos que consome. A Caixa Econômica Federal coopera para a sustentabilidade urbanística, social e econômica do país vizinho, apoiando o programa Grande Missão Vivenda (construção de três milhões de moradias até 2019) e a instalação de terminais do Banco da Venezuela em áreas periféricas. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) apoiou a construção de fábricas de refrigeradores e máquinas de processamento de alimentos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) assessora o planejamento territorial e industrial de fronteira de produção de hidrocarbonetos, o estado de Sucre e a Faixa Petrolífera do Orinoco, além de realizar estudos conjuntos sobre a integração produtiva e de infraestrutura entre o Norte do Brasil e o Sul da Venezuela.
O grande desafio é transformar o crescimento conjuntural do comércio em integração produtiva. Os presidentes Chávez e Rousseff deram um grande passo ao determinar a elaboração de estudos para subsidiar um Plano de Desenvolvimento Integrado entre o Norte do Brasil e o Sul da Venezuela.
O voto democrático nas eleições presidenciais venezuelanas de 07 de outubro deste ano será determinante para o aprofundamento do processo de integração regional. Novamente, na Venezuela, poder-se-á definir a tendência de mais um ciclo político regional: consolidação dos avanços de governos progressistas e fortalecimento da integração sul-americana ou reversão de conquistas com a volta da direita ao poder e realinhamento aos Estados Unidos.
* Pedro Silva Barros e Luiz Fernando Sanná Pinto fazem parte da Missão do IPEA na Venezuela
Fonte: Brasil de Fato
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