sexta-feira, 16 de março de 2012

Letônia insiste em lembrar data comemorativa fascista

Os veteranos das divisões Waffen SS nazistas voltaram a celebrar nesta sexta-feira (16) o que chamam de "Dia do Legionário" na Letônia. Na véspera, 15 de março, o Tribunal Municipal de Valmier havia levantado a proibição do Parlamento de Riga de efetuar uma marcha de partidários dos fascistas.

Hoje, a situação em Riga não esteve tranquila. Pelo centro da cidade passaram duas marchas ao mesmo tempo, uma de partidários dos legionários e a outra de antifascistas.

Apesar de tentativas de antigos "legionários" de ocultar a verdade e alegar que não foram membros da SS, eles serviram assim ao Exército Nazista na Letônia e em outros países.

Estas divisões foram formadas por fascistas em 1943, combatendo do lado da Alemanha e participando de operações punitivas contra a população civil.

Contudo, apesar de tais “méritos”, o dia 16 de março, após a desintegração da União Soviética e a independência da Letônia, foi declarado como data comemorativa, diz um dos presidentes do partido “Pelos Direitos Humanos na Letônia Unida”, Jakob Pliner:

"Naquele dia, durante a Segunda Guerra Mundial, a 15ª e a 19ª divisões letãs das Waffen SS combateram em conjunto com tropas alemãs contra o Exército Soviético no rio Velikaya. Em 1998, o Parlamento da Letônia proclamou este dia como data festiva e comemorativa. Passados dois anos, após prolongados debate, a pressão da Europa e da opinião pública progressista da Letônia, este dia, 16 de março, foi excluído do calendário oficial de datas festivas, mas, todos os anos, os nazistas e grupos de ideologia pró-fascista continuam a celebrá-lo."

Tal como é costume, a marcha começou no centro velho de Riga e prosseguiu até ao monumento à Liberdade. Os manifestantes agitavam bandeiras nacionais da Letônia, país que, no fundo, poderia não existir, considera Jakob Pliner.

"O Estado da Letônia foi conservado graças à vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Eu me lembro, li um documento em que se diz que os hitlerianos, em caso de vitória, pretendiam assimilar uma parte dos letões, assassinar outra parte e mandar os restantes para regiões do norte da Rússia. E se eles vencessem, aqui existiria a Östland. A língua estatal seria o alemão. Hitler nunca prometeu a independência à Letônia."

A constatação dos especialistas, apesar da realidade histórica é que os festejos em honra dos legionários letões das Waffen SS se tornam mais "disputados" cada ano que passa.

Este ano, o presidente da Letônia, o direitista Andris Berzins, declarou que os legionários devem ser honrados. "Fiquei chocado ao saber isso", diz Jakob Pliner.

"Senti vergonha por ele perante a sociedade letã, europeia e mundial. Ele poderia lamentar o que aconteceu na nossa história, mas não se pode de modo algum reescrever a história e tornar as Waffen SS um corpo de herois."

Apesar do apoio dos legionários por parte das autoridades, na Letônia há muitas pessoas que não esquecem a façanha dos soldados soviéticos que morreram pela libertação da república. Centenas de antifascistas saíram às ruas da cidade para protestar contra o fascismo crescente na Letônia.

Fonte: Vermelho com informações da Voz da Rússia

Nossa posição é dar força à Comissão da Verdade, diz Amorim

O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse nesta sexta-feira (16) que não vai opinar sobre a decisão do Ministério Público Federal (MPF) de denunciar à Justiça o coronel da reserva do Exército Sebastião Curió, por crimes cometidos durante o regime militar (1964-1985). Segundo Amorim, o Ministério Público é um órgão autônomo.

“O Ministério Público é um órgão autônomo. Eu não vou me pronunciar se ele está certo ou errado. Isso aí é a Justiça que vai se pronunciar. A posição nossa é dar força à Comissão da Verdade, com toda a integralidade que ela tem. Para tratar desses temas, há a lei que criou a Comissão da Verdade. Vamos tratar da Comissão da Verdade, com todos os aspectos que estão ali englobados. Vamos investigar tudo o que aconteceu. Todos terão que cooperar para que se conheça a verdade e, ao mesmo tempo, a Comissão da Verdade incorpora a Lei da Anistia”, disse Amorim.

Ele concedeu entrevista durante solenidade no Centro de Educação Física da Marinha (Cefan), no Rio de Janeiro, para premiar atletas militares que participaram dos Jogos Mundiais Militares, realizados no ano passado na cidade.

O Ministério Público acusa Curió de ter sequestrado cinco pessoas, capturadas durante repressão à Guerrilha do Araguaia na década de 1970 e que, até hoje, estão desaparecidas. O Ministério Público sustenta que o caso não se enquadra na Lei de Anistia, porque se trata de um sequestro no qual as vítimas continuam desaparecidas. Sem a confirmação das mortes, o Ministério Público trata o caso como um sequestro ainda em execução.

Fonte: Agência Brasil

TSE proíbe pré-campanha eleitoral pelo Twitter

Os candidatos a cargos eletivos não podem usar o microblog Twitter para se autopromover ou pedir votos antes do período de propaganda permitido por lei. É o que definiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por 4 votos a 3, em julgamento na noite de ontem (15). Os ministros entenderam que o Twitter é um meio de difusão de massa e que, assim como ocorre no rádio e na TV, a propaganda só deve ser autorizada a partir do dia 6 de julho do ano eleitoral.

O TSE analisou recurso do candidato à vice-presidência da República Índio da Costa, que disputou o cargo na chapa de José Serra (PSDB) em 2010. O Ministério Público Eleitoral acionou o TSE para contestar quatro mensagens em que o político pedia votos para Serra. As mensagens foram postadas no microblog no dia 4 de julho, dois dias antes do período de propaganda permitido por lei. Índio da Costa era seguido por 40 mil pessoas.

O primeiro a analisar a ação foi o ministro Henrique Neves, que em decisão individual, entendeu que houve propaganda ilegal e multou Índio da Costa em R$ 5 mil. Ele entendeu que o acesso às mensagens independe de cadastro prévio e que são replicadas sem nenhum controle, assim como ocorre nos meios de comunicação de massa.

Índio da Costa entrou com um recurso para que o plenário do TSE decidisse a questão. O julgamento começou em março de 2011, e foi interrompido por dois pedidos de vista, sendo que no último o placar estava em 2 a 2 - Aldir Passarinho Junior e Marcelo Ribeiro votaram com o relator, enquanto Cármen Lúcia e Antonio Dias Toffoli defenderam que o Twitter é uma ferramenta de comunicação privada, sem potencial de massa.

Ao devolver o caso para julgamento esta noite, o ministro Gilson Dipp também defendeu a liberação do uso do Twitter. Para Dipp, as mensagens são direcionadas a um público certo, que passou a seguir o candidato por vontade própria. “A liberdade das redes sociais não constitui desafio à Justiça Eleitoral, porque constitui fator de libertação do cidadão e dos eleitores, onde podem escolher mais facilmente a quem voluntariamente aderir ou seguir”, disse.

A maioria vencedora se formou com os votos dos ministros Arnaldo Versiani e Ricardo Lewandowski, que defenderam que o Twitter tem alcance de comunicação ilimitado. “Não se está cerceando direito de comunicação porque os particulares que não estiverem envolvidos no meio eleitoral podem falar. Não podem os candidatos usar por esse meio”, disse Lewandowski, sugerindo que essa realidade pode ser mudada com intervenção do Legislativo.

As regras já valem para as eleições municipais deste ano, e caso o candidato desrespeite entendimento do TSE, pode receber multa que varia entre R$ 5 mil e R$ 25 mil.

Fonte: Agência Brasil

Risco de alinhamento ideológico no jornalismo público

No mesmo mês em que a TV Cultura demitiu 50 profissionais das áreas de Operações, Jornalismo, Rádio, Produção, Manutenção e Engenharia, a emissora pública paulista estreou em sua programação um programa do Grupo Folha, com jornalistas e colunistas do jornal diário do conglomerado, Folha de São Paulo. E já se sabe que negocia fazer um acordo semelhante com Veja.

Para Gabriel Priolli, ex-diretor de Jornalismo e ex-Coordenador de Expansão e de Rede da emissora, ainda que muitos critiquem a participação de grupos privados de comunicação na grade da programação, o problema hoje, na TV pública paulista é outro: as opções de parcerias com grupos de comunicação específicos sinalizam que a Cultura está estabelecendo um alinhamento político e ideológico em seu jornalismo.

“É sabido que tanto a Folha, quanto a Veja têm afinidades entre si. São fortemente contra o governo federal e assumem diariamente posições de oposição”, argumenta o jornalista. Para ele, no entanto, uma TV pública deve garantir a diversidade e a pluralidade em seus conteúdos, dando espaço para todas as correntes de opinião. “Esse tipo de parceria não atende aos critérios de heterogeneidade que se esperaria de uma emissora pública e supostamente independente”, acrescenta.

Espaço para veiculação de grupos privados

Priolli não questiona a questão de uma TV pública ceder espaço para a veiculação de grupos privados. “Eu não seria coerente, se fizesse isso”, diz, ao lembrar que, durante sua gestão a emissora fez acordos de conteúdo com outras emissoras – a exemplo TV 5, francesa, e a BBC. “Ainda que a BBC seja estatal, sua programação abrange de tudo, inclusive o entretenimento, e pouco difere da apresentada em algumas TVs comerciais”, pontua.

Para o especialista em jornalismo televisivo, há um problema de fundo no jornalismo público  - universal mesmo – que é o seu financiamento. “TVs com esta característica, mundialmente, sofrem cronicamente com falta de receitas”, afirma. Exceção feita às emissoras daqueles países em que a TV já nasceu pública, a exemplo da Inglaterra, França ou Espanha. No restante do mundo, portanto, parcerias e permutas de conteúdo podem ser uma saída prática para um problema real.

“Não se trata de ser purista, aqui”, ressalta. Ele lembra que, por falta de verbas, o índice de reprises de programas antigos é absurdamente alto na TV Cultura, assim como há programas que se eternizam na grade, pois não há verba para se experimentar o novo.

Perguntas inconvenientes

Para o jornalista, o preocupante da nova fase da emissora é que os critérios de heterogeneidade de opiniões não estão presentes na linha do jornalismo. “A TV Cultura, ao longo dos anos, já travava uma luta permanente para não se subordinar ao governo estadual”, recorda. Uma luta que se acirrou nas últimas gestões – José Serra e Geraldo Alckmin - que procuraram impedir a própria existência de pessoas ou de grupos que tivessem qualquer posição antagônica às do governo estadual paulista.

“Ao ponto de, no jornalismo, nem se cogitar em fazer qualquer pergunta que, de alguma maneira, pudesse constranger as autoridades estaduais”, lembra.

Ele próprio foi demitido apenas por pautar uma matéria que tratava da questão dos pedágios paulistas, um tema largamente tratado por toda a mídia durante a última campanha ao governo do Estado. “A subordinação da emissora ao governo do Estado é de tal forma que até seu conselho curador, formado por 42 membros, em tese um anteparo às pressões governamentais, possui na sua composição 17 secretários estaduais, além de reitores das universidades, todos nomeados ou chancelados pelo governo estadual”, denuncia.

Conselho chapa branca

“Tampouco existe uma eleição de presidente ao conselho. O que ocorre é uma sagração. Quem escolhe, de fato, quem conduz a emissora é o governo do Estado”, acrescenta.

Para Priolli, ilude-se quem imagina a TV Cultura uma emissora pública e autônoma. “Na prática, trata-se de um órgão do governo do Estado”, afirma. Para ele, o mais preocupante é que jornalismo da emissora não é republicano, muito menos universal. “Tampouco o vemos dedicado à análise, ou à crítica”, comenta. Com a possível entrada de um programa da Veja na grade da emissora Priolli alerta: “é preocupante, pois o posicionamento de Veja reproduz o jornalismo “neoconservador”, o mesmo da emissora norte-americana Fox, com seu direitismo raivoso, explícito e exaltado”. O ex-diretor da TV Cultura ressalta que esta nova direita não tem qualquer escrúpulo para expurgar das redações profissionais de visão diferente.

No caso da TV Folha, pondera, nota-se, ao contrário, ainda que o jornal tenha uma posição bem mais crítica que o próprio jornalismo da TV Cultura – “seus colunistas fizeram perguntas às autoridades do governo que nenhum jornalista da Casa ousaria fazer”- o primeiro programa foi particularmente publicitário. “Fizeram questão de mostrar como a Folha faz jornalismo, ao invés de se centrarem nas notícias em si”, criticou.

Fonte: Blog do Zé Dirceu

A TV Cultura não é pública. Ela é tucana

Uma tevê pública é uma tevê pública, é uma tevê pública e é uma tevê pública, diria a senhora Stein. Pública. Um bem de todos, sustentado pelo dinheiro dos contribuintes. Uma instituição permanente, acima das contingências políticas, dos interesses de grupos, facções, partidos. A Cultura de São Paulo já cumpriu honrosamente a tarefa. Nas atuais mãos tucanas descumpre-a com rara desfaçatez.

A perfeita afinação entre a mídia nativa e o tucanato está à vista, escancarada, a ponto de sugerir uma conexão ideológica entre nossos peculiares social-democratas e os barões midiáticos e seus sabujos. A sugestão justifica-se, mas, a seu modo, é generosa demais. Indicaria a existência de ideias e ideais curtidos em uníssono, ao sabor de escolhas de vida orientadas no sentido do bem-comum. De fato, estamos é assistindo ao natural conluio entre herdeiros da casa-grande. -Nada de muito elaborado, entenda-se. Trata-se apenas de agir com a soberana prepotência do dono da terra e da senzala.

E no domingo 11 sou informado a respeito do nascimento de uma TV Folha. Triunfa nas páginas 2 e 3 da Folha de S.Paulo a certidão do evento, a prometer uma nova opção para as noites de domingo na tevê, com a jactanciosa certeza de que no momento não há opções. E qual seria o canal do novo programa? Ora, ora, o da Cultura. Ocorre que a tevê pública paulista acaba de oferecer espaço não somente à Folha, mas também a Estadão, Valor e Veja. Por enquanto, que eu saiba, só o jornal da família Frias aproveitou a oportunidade, com pífios resultados, aliás, em termos de audiência na noite de estreia.

Até o mundo mineral está em condições de perceber o alcance da jogada. Trata-se de agradar aos mais conspícuos barões da mídia, lance valioso às vésperas das eleições municipais no estado e no País. E com senhorial arrogância, decide-se enterrar de vez o sentido da missão de uma tevê pública. Tucanagens similares já foram cometidas em diversas oportunidades nos últimos anos, uma delas em 2010, o ano eleitoral que viu José Serra candidato à Presidência da República. Ainda governador, antes da desincompatibilização, Serra fechou ricos contratos de assinatura dos jornalões destinados a iluminar o professorado paulista.

Do volumoso pacote não constava obviamente CartaCapital, assim como somos excluídos do recente convite da Cultura. O que nos honra sobremaneira. Diga-se que, caso convidados (permito-me a hipótese absurda), recusaríamos para não participar de uma ação antidemocrática ao comprometer o perfil de uma tevê pública, amparada na indispensável contribuição de todos os cidadãos, independentemente dos seus credos políticos ou da ausência deles.

Volta e meia, CartaCapital é apontada como revista chapa-branca, simplesmente porque apoiou a candidatura de Lula e Dilma Rousseff à Presidência da República. Em democracias bem melhor definidas do que a nossa, este de apoiar candidatos é direito da mídia e valioso serviço para o público. Aqui, engole-se, sem o mais pálido arrepio de indignação, a hipocrisia de quem se pretende isento enquanto exprime as vontades da casa-grande. Há quem se abale até a contar os anúncios governistas nas páginas de CartaCapital, e esqueça de computar aqueles saídos nas demais publicações, para provar que estamos aos préstimos do poder petista.

Fomos boicotados durante os dois mandatos de Fernando Henrique e nem sempre contamos com o trato isonômico dos adversários que tomaram seu lugar. Fizemos honestas e nítidas escolhas na hora eleitoral e nem por isso arrefecemos no alerta perene do espírito crítico. Vimos em Lula o primeiro presidente pós-ditadura empenhado no combate ao desequilíbrio social, embora opinássemos que ficou amiúde aquém das chances à sua disposição. E fomos críticos em inúmeras situações.

Exemplos: juros altos, transgênicos, excesso de poder de Palocci e Zé Dirceu, Caso Battisti, dúbio comportamento diante de prepotências fardadas. E nem se fale do comportamento do executivo diante da Operação Satiagraha. Etc. etc. Quanto ao Partido dos Trabalhadores, jamais fugimos da constatação de que no poder portou-se como os demais.

Hoje confiamos em Dilma Rousseff, de quem prevemos um desempenho digno e eficaz. O risco que ela corre, volto a repetir na esteira de agudas observações de Marcos Coimbra, está no fruto herdado de uma decisão apressada e populista, a da Copa de 2014. Se o Brasil não se mostrar preparado para a empreitada, Dilma sofrerá as consequências do descrédito global.

No mais, desta vez dirijo minha pergunta aos leitores em lugar dos meus botões: qual é a mídia chapa-branca?

Fonte: Mino Carta, Carta Capital

Morre o geógrafo Aziz Ab Saber

O geógrafo Aziz Ab`Saber faleceu aos 87 anos na manhã desta sexta-feira (16), em decorrência de um infarto sofrido em sua casa, na cidade de Cotia (SP).

Nascido em outubro de 1924 na cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), era um dos intelectuais mais renomados do país, sendo autor de diversos estudos e teorias fundamentais na área da geografia física e referência em temas como aspectos naturais do Brasil e meio ambiente.

Fonte: Revista Fórum

quinta-feira, 15 de março de 2012

Só em 2011, Israel demoliu 622 construções palestinas

No caminho do Mar Morto, Jerusalém esquece que é uma cidade e se transforma. Começa o deserto rochoso, a estrada se enche de caminhões a caminho do grande porto de Eilat e à frente, em um planalto enorme rodeado de verde, domina a colônia de Ma´ale Adumim (40 mil habitantes). À esquerda, desenvolvido em meio à paisagem bela, o quadro é outro: ali está o muro de concreto que isola a Cisjordânia e, ao pé, pequenos barracos destroçados que um dia abrigaram vida, que um dia foram um lugar, e hoje são sucata empilhada. Ali, em Anata, Israel realizou sua última demolição na capital, casas de palestinos que foram derrubadas entre 23 e 25 de janeiro. Em todo ano de 2011, 622 estruturas foram derrubadas pelo governo israelense, das quais 36% (222) eram moradias particulares e o restante eram infraestruturas essenciais para a subsistência, como depósitos de água, granjas de animais ou propriedades agrícolas. 1.094 palestinos tiveram que se mudar ao ver destroçado seu lugar ou seus meios de vida, praticamente o dobro de 2010. Entre eles, ainda, haviam 609 crianças, arrancados de sua rotina, sua escola, seu centro de saúde. A estatística vem do Comitê Israelense contra a Demolição de Casas (ICAHD) e se contrata com os informes das Nações Unidas.

Mas por que estão tirando essas casas? Ann Harrison, diretora adjunta do programa da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, o explica. “Cisjordânia está dividida em zona A, B e C. Nesta última, Israel tem plena autoridade em assuntos civis e no controle da segurança. Isso supõe que quase 62% da terra palestina são controlados por eles. Nessas zonas, nas quais vivem 200 mil pessoas (entre Cisjordânia e Jerusalém Leste), as restrições de movimento e de construção são muito elevadas. Cerca de 94% dos pedidos de licença de obras são rechaçadas, essa é a tendência da última década, enquanto a população continua crescendo com uma média de cinco filhos por família. Os palestinos se veem obrigados a construir onde não podem, mas onde precisam”, relata.

Segundo a taxa atual de crescimento demográfico, a ONU afirma que em Jerusalém Oriental a diferença entre a necessidade de moradia entre os palestinos e as construídas legalmente era de ao menos 1.100 ao ano (segundo o balanço de 2010; o de 2011 ainda não está fechado). O problema também chega à Faixa de Gaza, apesar do plano de desconexão de 2005 que tirou de lá os últimos colonos. “Isso não impede que o Exército entre de vez em quando para demolir algo”, denuncia Raji Sourani, que está à frente do Centro Palestino pelos Direitos Humanos (PCHR).

Israel insiste que está aplicando a lei e as divisões dos Acordos de Oslo, e que não pode consentir com a construção de “estruturas ilegais”, explica a assessoria do primeiro ministro, Benjamín Netanyahu. O argumento dos palestinos é que conseguir uma permissão é um “caro, longo e muitas vezes infrutífero processo” que não resolve sua urgente necessidade de espaço e que não cairiam na ilegalidade se não fosse a “asfixia” a que os submete Israel, destacam os informes da Sociedade para o Desenvolvimento Al Maqdese. Um exemplo: só 13% da superfície de Jerusalém Oriental está catalogada como edificável, sendo que a zona “legal” se encontra hiper povoada e são cada vez mais habituais os casos de exílio ou de tentativa de expansão em zonas vetadas. Já 35% das terras da zona palestina de Jerusalém estão sendo confiscadas “para fazer assentamentos ilegais com 195 mil israelenses” e 18% da Cisjordânia têm sido declarados “zona militar fechada”, o que veta as edificações palestinas e limita a circulação de pessoas, especialmente no Vale do Jordão nos montes do sul de Hebrom, denuncia o informe “Seguros em casa?”, editado pela Anistia.

As demolições são realizadas habitualmente sem aviso prévio, segundo os afetados, e com a notificação correspondente, segundo Israel. O enviado humanitário das Nações Unidas nos Territórios, Maxwell Gaylard, avaliza a versão dos palestinos. “Quase não há possibilidade de recolherem seus pertences antes que a máquina comece a quebrar tudo”, denuncia. Quando tudo está quebrado, não há abrigo nem uma indenização, os palestinos buscam acomodação em casas de familiares (sobretudo do marido, o que submete ainda mais a mulher ao clã patriarcal), amigos ou espaços cedidos por ONGs. Gaylard entende que, segundo a jurisdição internacional, “a potência ocupante tem a responsabilidade de proteger a população civil palestina debaixo de seu controle e garantir sua dignidade e bem-estar”. “A destruição de suas moradias e meios de subsistência não é compatível com essa responsabilidade nem com os ideias humanitários”, disse enquanto visitava as casas tiradas em Anata, uma ordem que desabrigou 52 pessoas, 29 delas menores de idade. “Os palestinos precisam de um sistema de planejamento justo e não discriminatório que satisfaça suas necessidades de crescimento e desenvolvimento”, acrescentou.

A ONU afirma, em sucessivos comunicados, que as demolições violam a Quarta Convenção de Genebra, sobre proteção de civis em tempo de guerra, cujo artigo 53 “veta a destruição de uma propriedade se não está militarmente justificado” e impede de igual modo “a transferência de população” (artigo 49). Ao primeiro ponto, Israel responde que todos os palestinos estão sujeitos “por segurança” à lei militar. Ao segundo, simplesmente despreza as repreensões do Ocidente sobre suas “provocantes expansões de colônias”.

Em setembro passado, três relatores das Nações Unidas pediram formalmente a Israel que pare com as demolições que, “por sua natureza discriminatória”, são “completamente inaceitáveis”. “Os israelenses não desejariam ser submetidos a semelhantes práticas”, assinalaram. Não eram funcionários de classe média, senão vozes muito respeitáveis no organismo: Raquel Rolnik, relatora especial sobre direito a uma moradia adequada; Catarina de Albuquerque, relatora sobre o direito à água potável e aos serviços sanitários; e Olivier de Shutter, do direito à alimentação. Todos eles, do escritório da Alta Comissionada para os Direitos Humanos da ONU. Rolnik acaba de começar uma visita de duas semanas à zona, ante à convocação das ONGs que trabalham na zona para que conheça em primeira mão a situação.

Itay Epstein, co-diretor do ICAHD, explica que Israel não só trata de impor uma divisão de terreno que lhe é favorável, nem busca a legalidade acima de tudo, mas que há um importante objetivo, menos claro, atrás das demolições: o empenho em “judaizar” a Palestina. 90% do vale do Jordão (apreciado pela água e pelos cultivos) está nas mãos de Israel, ocupado por 37 colônias, com quase 10 mil residentes (12% do solo, 119 quilômetros quadrados), com 26 reservas naturais (20%, 318 quilômetros quadrados) e com 736 quilômetros quadrados (46% do total) fechados, por ser zona militar.

Sob suas palavras, surgem casos como o de Arabiya e Salim, proprietários de uma das casas tiradas no final de janeiro. Era a quinta vez que as pás mecânicas de Israel destruíam sua casa, Beit Arabiya, a casa de Arabiya. A moradia era um símbolo de resistência, levantada quatro vezes com a ajuda de voluntários internacionais (muitos deles, espanhóis), o ICHD e ONGs locais como Rabinos pelos Direitos Humanos. Na residência, levantada em homenagem à ativista Rachel Corrie (morta ao tentar frear as demolições), estavam no momento do despejo o casal e seus sete filhos. Os operários se apresentaram às 11 da noite do dia 23 de janeiro, uma escavadeira com potente reforço militar que acabou com esta casa e várias estruturas residenciais e agrícolas vizinhas na zona de Jahalin, uma comunidade beduína vizinha. Outras 20 pessoas expulsas do lugar no meio do deserto, em um frio inverno.

No dia seguinte, tiraram a casa dos Abu Omar, levantada em 1990 em terrenos de sua propriedade em Anata. Onde estava então o problema se a terra era sua? Israel sustentava que a área estava “reservada para uso agrícola”. Por isso já havia sido demolida em 2005. Demoraram todos estes anos para recuperá-la, tijolo por tijolo, e no dia 24 de julho passado a terminara. Seis meses depois, voltaram a estar desabrigados. Um grupo de 17 pessoas, entre eles várias crianças. E menos de 12 horas depois deste acontecimento, outras duas casas foram eliminadas na aldeia beduína de Umm Al Kheir, ao pé da colônia de Karmel, em plena expansão. Em uma residia um casal de idosos; na outra, uma viúva com nove filhos. Os soldados ficaram, além disso, com o trator com o qual a mulher lavrava a terra.

Todos os afetados ficaram circulando pela zona, sem saber bem que caminho tomar, onde refazer sua vida. Durante os primeiros dias, recolheram tábuas, malas e colchões, o pouco que poderiam continuar usando. Um pequeno tesouro. A rede de cooperação tecida em torno das demolições está lhes ajudando, mas demora a apagar-se a aparência de desolação total, a esperança perdida com o teto que as máquinas derrubaram.

Essa história se repete em uma das zonas mais afetadas por estas demolições, Jiftlik, no Jordão, onde se concentrou no ano passado 32% do total de atuações de Israel (109 estruturas demolidas, delas 89 residenciais, e 401 deslocados, segundo o ICAHD). A população, de algo mais de 5 mil habitantes, tinha “extensas terras de lavoura” antes de 1967 e sua guerra. Agora, esse espaço é zona militar protegida. Em 2005, denuncia Al-Maqdese, o Ministério da Defesa de Israel elaborou um “plano de traçado” que determinava onde podiam viver os palestinos. O fizeram “sem avisar aos vizinhos nem abrir período para argumentações”. 40% das moradias ficaram fora desse limite permitido, sendo que 30 edifícios foram reprovados nesses últimos anos e há 10 ordens de demolição mais pendentes. As casas que ficaram dentro do perímetro legal também necessitam tirar licença prévia se fizerem obras, uma documentação que demora ao menos um ano e meio, explica a ONG.

A última grande luta contra os despejos forçados é a ameaça de demolição de um grupo poderoso de famílias em Khan al Ahmar. Israel planeja que os 2.300 residentes beduínos que agora estão nesse canto da Cisjordânia vão viver a 300 metros do aterro municipal de Jerusalém, uma zona insuportável pela orografia (condições do relevo) e pelas condições sanitárias (recebe 1.100 toneladas de lixo por dia). A campanha da Anistia Internacional está sendo muito forte para evitar o deslocamento destas 20 comunidades. O ministério, que tem o plano escrito desde o verão, tem dito que não vai executá-lo por completo, mas não esclarece sua posição. Inclusive, tem prometido que, uma vez reassentados, os beduínos terão acesso às conexões de água e eletricidade. Está sendo criado um comitê para protegê-los e planejar suas exigências; sendo: regressar ao deserto do Neguev, de onde os tiraram nos anos 50; ficar onde estão com melhores serviços ou pactuar um deslocamento com garantias.

É emblemática nesta zona a chamada “escola das 3 mil rodas”, que também corre o risco de ser derrubada, junto com moradias. Quase uma centena de crianças se beneficiam do edifício; até há pouco careciam de educação, porque tinham que deslocar-se 30 quilômetros até os colégios mais próximos da UNRWA, cruzando estradas, buscando alguém que os levassem, a poucos metros de Kfar Adumim, uma colônia, de onde veio a denúncia ante o governo israelense que, já em 2009, deu a primeira ordem de demolição. A ONG italiana Vento da Terra, junto a Mãos Unidas e várias missões combonianas, levantaram a administração, um banheiro, um pátio.... Reconhecidos pelo Ministério de Educação palestino, as professoras são meninas do povoado formadas como professoras, fechando o círculo de dignidade e oportunidades. Mas ninguém sabe o quanto ainda fica em pé. O Executivo italiano e sua Conferência Episcopal estão pressionando para evitar o fim. Seria importante, mas apenas o começo. Segundo a ONU, hoje há cerca de 4 mil ordens de demolição pendentes de execução.

Fonte: Brasil de Fato